A extinção de línguas indígenas no Brasil
Enviada em 04/12/2020
Em seu poema “Erro de português”, Oswald de Andrade relata sobre a aculturação sofrida pelos indígenas com a chegada dos europeus. Decerto, embora escritos no século passado, os versos do autor vão ao encontro da realidade brasileira contemporânea que, com a desvalorização da cultura pré-cabralina e atuais políticas de cerceamento físico e intelectual às comunidades indígenas, impulsionam a extinção das línguas nativas do Brasil.
Em primeira análise, pontua-se sobre o desconhecimento popular acerca das tradições e línguas do continente sul-americano antes de 1498. Ao analisar pelo viés de Hannah Arendt, que postulou sobre como a falta de conhecimento do passado impede uma relação orgânica com o presente, fica claro que evitar o estudo das comunidades indígenas antes da chegada dos portugueses traz consequências na atualidade. Mesmo assim, dados do Ministério da Educação e Cultura, o MEC, mostram que a grade curricular obrigatória no ensino brasileiro não estipula quaisquer diretrizes para o assunto: há a análise dos povos astecas, maias, bárbaros europeus, comunidades africanas, mas nada aprofundado sobre tupis, por exemplo. Dessa maneira, evidencia-se uma sociedade que normatizou a falta de estudos sobre seu passado, culminando no atual processo gradual de extinção das línguas indígenas no país.
Como consequência direta dessa desvalorização cultural, há uma tendência na contemporaneidade de sobrepujar o ideário cultural das comunidades nativas do país. Segundo dados do portal “Brasil escola”, no período pré-colonial, a importância dos comportamentos locais era tremenda: marinheiros portugueses eram arremessados ao mar para se tornarem “línguas”, isto é, intérpretes das populações e costumes locais, no intuito de estabelecer uma relação de paz. Hoje em dia, essa mentalidade foi desmantelada com a consolidação do Brasil agroexportador. À procura de terras cultiváveis, grandes fazendeiros avançam sobre áreas de demarcação indígena, desimpedidos por uma administração federal que os apoia: o próprio presidente da república admite, segundo o “UOL” que considera a comunidade indígena “inútil”. Assim, nota-se uma cultura moderna de descaso com os comportamentos de tribos indígenas, incluindo sua história, tradições e, também, sua língua.
Em suma, observa-se que o desconhecimento geral acerca do passado somado ao comportamento anti-indígena atual são fatores que colocam em risco as línguas nativas do país. Assim, cabe ao MEC, órgão responsável pela organização educacional no país, promover a inclusão de estudos detalhados sobre a época pré-cabralina no currículo escolar obrigatório, incentivando desde a infância o apreço pela cultura das comunidades originais, e impedindo a perpetuação do ideário político contra índios. Só assim, as populações indígenas conseguirão “despir o português”.