A extinção de línguas indígenas no Brasil

Enviada em 15/12/2020

Em 1822, início do período romântico da literatura brasileira, a figura do índio foi moldada como a do herói selvagem e usada como símbolo da nova identidade nacional. Fora do tablado ficcional, entretanto, o aborígene não foi reconhecido como brasiliano e isso se prolongou até o ano de 1988. Contudo, alguns danos irreversíveis já haviam infligido esses povos, como a extinção de suas línguas, causada pelo histórico cultural de desvalorização do nativo e pela questão territorial.

A priori, deve-se entender que o indígena nunca foi visto de fato como brasileiro até a Constituição de 1988 entrar em vigor. Nesse viés, o artigo 231 da Carta Magna afirma que “são reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições” e obriga o Estado a proteger essa cultura. Entretanto, devido ao longo período de exclusão direcionado a esse grupo, os demais participantes da sociedade brasiliense desvalorizam os aspectos étnicos que gerem os diferentes povos aborígenes, inclusive as linguagens adotadas por eles. Devido a isso, já ocorreram a extinção de mais de mil línguas dos autóctones e mais 190 estão em perigo, de acordo com o Atlas Mundial das Línguas. Sendo assim, fica claro que o descaso na preservação e inserção dessas comunidades foram um grande fator de anulação dos seus dialetos.

Ademais, fatores territoriais também interferem no resguardo do linguajar indígena. De acordo com a UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), o Brasil é o terceiro país com o maior número de línguas ameaçadas de extinção. Diante disso, o aspecto localidade é um contribuinte para o desaparecimento de vários dialetos, pois sem um território próprio, é quase impossível manter viva a cultura dessas comunidades. Contudo, existem vários projetos de lei que buscam diminuir o espaço das terras dos aborígenes ou explorá-las com fins lucrativos, além das explorações ilegais que já ocorrem. Nesse viés, os habitantes desses locais são forçados a abandoná-los ou são assassinados, fazendo com que o grupo, assim como a fala, se disperse e deixe de existir.

Em suma, a extinção de línguas indígenas no Brasil ocorre pelo histórico de descaso ao índio e pelo aspecto territorial. Desse modo, é dever do Estado se fixar na Constituição e reconhecer o direito dos índios, por meio de programas sociais que estudem, preservem e ampliem a cultura desses povos para o resto da sociedade, objetivando uma disseminação de fatores étnicos, assim, mesmo se não falada por muitos, os dialetos seriam conhecidos. Além disso, seria cabível ao Ministério da Educação auxiliar na expansão da língua, por meio de pesquisas que identifiquem o falar presente em cada região e sua aplicação em forma de aula nas escolas, objetivando que todos tenham em mente que aquele linguajar também compõe o Brasil, assim o aborígene como brasiliano não ficaria apenas na literatura.