A extinção de línguas indígenas no Brasil
Enviada em 23/12/2020
Na obra literária brasileira “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, o escritor Machado de Assis apresenta um patriota ufanista obcecado pela língua tupi-guarani. Nessa história, é possível notar como um idioma não é capaz de prosperar se não houver um meio sociocultural para expressá-lo. Atualmente, as línguas brasileiras enfrentam problemas para a sua autoafirmação, como a homogeneização cultural e a falta de engajamento educacional.
Em primeiro lugar, a tendência contemporânea de padronização de costumes prejudica a adoção de novos falantes de idiomas indígenas. Segundo o historiador israelense Yuval Noah Harari, a homogeneização cultural perpetrada pelos antigos Impérios, como o Romano, foi a principal responsável pela erradicação de milhares de línguas e tradições sócio-históricas. Essa atitude etnocêntrica se expressa atualmente no “sonho americano”. Isso porque o inglês é o idioma central na comunicação, no trabalho e no entretenimento, o que demonstra a influência comercial, política e econômica norte-americana. Assim, frente ao domínio de um idioma prestigiado, as minorias linguísticas não encontram espaço para fazer multiplicar seu próprio contingente de falantes.
Em segundo lugar, a ausência de políticas escolares de ensino de idiomas indígenas impacta negativamente a expressividade linguística. Segundo o sociólogo americano Peter Berger, os indivíduos obtêm a cultura de seu contexto familiar e social. Nesse sentido, os indígenas necessitam de um espaço adequado para transmitir seu idioma a outros indivíduos, mas são pressionados por normas que não condizem com seus costumes. Isso porque os ensinamentos, os jogos e as brincadeiras escolares favorecem a cultura linguística dominante, como o inglês para o Halloween ou o espanhol para o Dia dos Mortos. Dessa forma, se não houver a introdução do contexto indígena no ambiente educacional, os jovens cidadãos não reconhecerão a importância dos idiomas ameríndios.
Portanto, a erradicação do patrimônio linguístico indígena do Brasil é resultado da padronização cultural e da falta de políticas de afirmação idiomática. Nesse sentido, é necessário que o Ministério da Educação insira disciplinas voltadas para o ensino de línguas indígenas na Base Nacional Comum Curricular (dispositivo que regula a grade curricular brasileira), por meio do trabalho interdisciplinar das matérias de História, Geografia, Artes e Linguagens, a fim de despertar o interesse dos mais jovens no aprendizado das tradições ameríndias. Ademais, a população brasileira deve apoiar iniciativas de redes de televisão que propaguem conteúdos vinculados ao meio indígena, por meio da divulgação nas redes sociais, a fim de fazer frente à homogeneização de costumes. Assim, os indígenas contarão com uma expressiva rede de apoio que o Major Quaresma não pôde construir sozinho.