A extinção de línguas indígenas no Brasil

Enviada em 20/05/2021

O livro modernista Macunaíma utiliza recursos da cultura e do vocabulário indígena para construir a imagem nacional do Brasil, tendo, inclusive, um índio como personagem principal. Fora das páginas, bem como no livro, o folclore, por exemplo, está presente no convívio sociocultural brasileiro. Ainda assim, os indígenas são minorias sociais, sofrendo de apagamento histórico, desapropriação cultural e sendo tratados, até hoje, como selvagens, por isso, têm suas línguas invalidadas pelo academicismo.

Inicialmente, a aculturação é um processo de combinação de culturas em que uma exerce poder dominante sobre a outra, modificando-a e removendo traços significativos daquele grupo. Analogamente, a série da Netflix, Cidade Invisível, atraiu diversos elogios por parte da população não aborígene, enquanto foi duramente criticada pelos povos originários, que se sentiram invalidados pela ausência de pessoas indígenas na produção e pelas incoerências com suas respectivas crenças e vivências. Fica clara, então, a negatividade desse processo, que não só agrega um valor diferente a um povo, como também aponta sua existência como desnecessária mesmo para contar suas histórias – já que elas são erroneamente reproduzidas, independente da verossimilhança.

Em segundo plano, as línguas autóctones têm sua importância negligenciada, tornando-as passíveis de extinção. Novamente em Macunaíma, Mário de Andrade, no capítulo Carta para Icamiabas, ressalta a diferença do português escrito para o brasileiro falado, a esse último sendo atribuído à falta de intelectualidade. Em adição a isso, segundo Marcos Bagno, linguista e doutor em filologia, a língua não é tratada como qualquer manifestação oral e escrita de um idioma, e sim como um ideal de pureza e virtude falado e escrito apenas pelos que merecem exercer seu domínio sobre as demais camadas populacionais. Dessa forma, evidenciam-se os obstáculos dos vernáculos indígenas, ainda vistos como meio tribal de comunicação de povos minoritários.

Logo, é possível identificar a necessidade de defender e preservar a diversidade linguística brasileira. Fica a cargo, portanto, do Ministério da Educação a realização de investimentos voltados à pesquisa científica (antropóloga, linguística, histórica) de línguas nativas do Brasil por via das universidades federais, priorizando o protagonismo indígena, de modo a validar e encontrar caminhos para perpetuar a existência desses idiomas. Além disso, deve haver incentivos para que as mídias, ao utilizarem cultura indígena em produções artísticas, tenham indígenas nas equipes; roteirizando e atuando, com o propósito de reafirmar a existência e importância da representatividade desses povos. Em vista disso, o Brasil será capaz de conservar a língua e cultura nativa, incluindo-as no retrato do país, como fez Mário de Andrade em sua obra nacionalista, Macunaíma.