A extinção de línguas indígenas no Brasil

Enviada em 04/11/2021

‘‘Triste Fim de Policarpo Quaresma’’, célebre obra pré-modernista de Lima Barreto, discorre acerca da rotina de Quaresma, um homem altamente nacionalista que defendia o estabelecimento do tupi-guarani como a língua oficial do povo brasileiro. Entretanto, Policarpo Quaresma não contava com o fato de que, ao decorrer das décadas, as línguas indígenas seriam cada vez mais degradadas, levando-as à possível extinção. Nesse viés, salienta-se o caráter predatório do progresso brasileiro e a negligência estatal como os entraves desse quadro, urgindo medidas por parte do Estado.

Sob esse prisma, é imperativo pontuar a forma violenta com que os portugueses, na época do descobrimento, trataram a cultura indígena, impedindo suas manifestações, seus direitos e, sobretudo, sua liberdade. Consequentemente, em face desse caráter predatório e etnocêntrico, as línguas indígenas entraram em declíneo, pois a escravização dos nativos e a ignorância do homem europeu tolhiram o exercício da cultura nativa. Esse impasse mostra-se evidente nas primeiras obras românticas, a exemplo das de Gonçalves Dias, as quais relatavam a opressão dos portugueses e a situação de vulnerabilidade dos índios. Paralelamente, hoje, o contexto ainda é o mesmo, apesar do fim da escravização indígina, o povo tupiniquim mostra-se esquecido quanto às raízes da formação do país, configurando o olvidamento das línguas indígenas, um cenário devastador para Quaresma.

Simultaneamente, é lícito afirmar que o Ministério da Educação, enquanto um órgão que visa garantir a elucidação e a formação educacional do povo brasileiro, negligencia a prática e os ensinamentos das línguas indígenas nas escolas. Nesse sentido, o conceito de ‘‘Amensalismo social’’, arquitetado pelo linguísta brasileiro Jason Lima, ilustra bem tal perspectiva, uma vez que, semelhante à relação ecológica, a classe dominante de uma sociedade, para manter seu poder, impede o desenvolvimento de outra classe menos favorecida. Analogamente, essa classe despresigiada, na figura do indígena, não tem o seu devido papel imposto no ensino básico, onde suas culturas, suas doutrinas e seus costumes estão cada vez mais obstaculizados, indo ao caminho contrário das proposta de Policarpo.

Portanto, diante dos desafios supramencionados, torna-se imperiosa a ação do Ministério da Educação na promoção de verbas e investimentos nas áreas de educação, com o fito de desenvolver um grupo de estudos pautado no ensino de línguas indígenas. Isso deve ocorrer mediante um pacote de ações orçamentárias a ser incluído no Plano Plurinual. Ademais, esse projeto pode ser influenciado por campanhas na mídia, a fim de convidar a população verde-amarela para usufruir e aprender a cultura indígena. Assim, a cultura do período colonial e o amensalismo vigente no país poderão ser combatidos. Quiçá, nessa via, este seria um país do qual Policarpo Quaresma pudesse se orgulhar.