A herança da escravidão na sociedade brasileira do século XXI.
Enviada em 03/08/2020
No romance Clara Dos Anjos, de Lima Barreto, conhecemos a trágica história de uma jovem moça, pobre, marginalizada e negra, que encontra dificuldades diante de uma realidade racista. Naturalmente, o objetivo do escritor pré-modernista era justamente criticar o comportamento brasileiro preconceituoso ainda existente décadas após a abolição da escravatura, porém o que ele talvez não esperava era que, quase um século depois, a situação não estaria muito diferente. Nesse contexto, é possível verificar que, em pleno século XXI, ainda carregamos uma herança dolorosa proveniente dos nossos anos de escravidão, herança essa que traz diversos problemas sociais, os quais retardam o desenvolvimento do país e interferem intimamente no cotidiano de diversos cidadãos negros hoje no Brasil.
Em primeiro lugar, é importante evidenciar a marginalização que ocorreu com os escravizados libertados após o fim da escravidão, os quais foram expulsos da sociedade brasileira da época, e forçados a viverem em regiões periféricas das cidades. Esse quadro pouco se modificou ao longo dos anos, sendo esse justificado com dados de pesquisa nomeada “Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil”, realizada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) em 2019, a qual evidencia que 75% da população pobre do país é negra. Bem como, segundo o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), quem mais sofre com a violência das ruas no Brasil são os negros.
Além disso, o reflexo da marginalização trouxe também outros problemas, como o escasso acesso a recursos básicos de sobrevivência, que culminaram no desenvolvimento do crime em comunidades carentes e afetaram a educação do país. De acordo com o Departamento Penitenciário Nacional (Depen), em 2016, a população carcerária brasileira era composta predominante por negros, mais especificamente 65% dela. Segundo outra pesquisa realizada pelo IBGE, em 2019, o índice de abandono escolar atinge os negros de maneira bem mais significativa do que os brancos, sendo que quatro em cada dez jovens negros não concluem o ensino médio.
Sendo assim, para que seja possível ceifar a mentalidade racista presente na sociedade brasileira, será necessária a ação conjunta do governo e população. Para que seja fornecida qualidade de vida igualitária aos cidadãos é preciso equiparar, por meio de cotas raciais e projetos de inclusão social, realizados por órgãos legislativos públicos, as oportunidades de vida entre todos. Assim como, é dever da população portar-se de maneira respeitável perante as desigualdades raciais e sociais afim de se comprometer com a proposta de uma realidade igualitária, e, para isso, deve-se elaborar leis que criminalizem práticas racistas que vão além de agressões físicas, para que o criminoso pague por seu crime e não passe para frente uma herança deturpada de um período que nunca deveria ter existido.