A herança da escravidão na sociedade brasileira do século XXI.
Enviada em 14/01/2021
“O mais escandaloso dos escândalos é que nos habituamos a ele”. A afirmação da filósofa francesa Simone de Beauvoir é claramente aplicável à manutenção da escravidão na sociedade brasileira, ao considerar que mais danoso que sua ocorrência é a indiferença da população frente essa realidade. Por conseguinte, não são raros os casos em que as condições de trabalho apresentam semelhanças com a da, então legalizada, escravidão vivenciada na colonização do Brasil, algo grave para a efetivação da dignidade da pessoa humana. Com efeito, há de se deliberar sobre a cultura da impunidade e a manutenção velada desse sistema.
É válido pontuar, de início, que a morosidade do sistema de justiça é uma das principais causas para a manutenção da escravidão no país. De acordo com Cícero, filósofo romano, a impunidade é a melhor forma de perpetuar a injustiça. Nessa visão, não são raros os casos em que a complacência da legislação, demora na apuração de casos e na aplicação das sanções penais, fomenta o comportamento racista que subjuga o indivíduo da raça negra, o que representa grave afronta ao princípio da dignidade da pessoa humana. Assim, é inconcebível que o sistema de justiça da nação não desenvolva mecanismos jurídicos capazes de atenuar os crimes de cunho racial.
De outra parte, a sociedade, na contemporaneidade, ainda reproduz aquela do sistema colonial brasileiro. A cerca disso, o escritor Gilberto Freyre, na obra Casa-Grande e Senzala, descreve a formação do Brasil foi moldada dentro de um viés patriarcal - sob comando do homem branco - ligado a casa-grande, e a do imigrante africano - mão de obra escrava -, ligado a senzala. Dessa forma, ao avaliar os resquícios históricos registrados, ainda se percebe, na sociedade brasileira a manutenção da herança escravocrata no ramo laboral, que, embora proibida em texto Constitucional, sua prática persiste de forma escusa e menos evidente. Logo, visando inserir com maior representatividade esses cidadãos adota-se, no Brasil, cotas raciais para o ingresso na universidade e no concurso.
É mister, portanto, que esse cenário seja combatido na nação. Para tanto, a escola - instituição responsável pela formação cidadã-, deve, por meio de wokshops e palestras, ministrar conteúdos capazes de desestimular qualquer discriminação envolvendo a questão racial. Essa iniciativa no ambiente acadêmico estudantil, ao desestigmatizar o etnocentrismo, desestimulará qualquer comportamento discriminatório. Feito isso, muito em breve, a escandalosa prática do desrespeito a questão de raça, conforme delata Beauvoir, será atenuada com base na difusão do conhecimento.