A importância da cultura digital no mercado de trabalho

Enviada em 26/07/2020

“O Estagiário”, filme recente de uma famosa plataforma de streaming, aborda a interessante história de Ben, um sexagenário que retorna ao trabalho encontrando dificuldades pelo cenário de intensa informatização. Com efeito, a cultura digital no trabalho tem se tornado regra e deve ser entendida tanto do ponto de vista de sua importância quanto de sua exigência. Tal como posta, a práxis atual cria uma dicotomia ao passo que fomenta o desenvolvimento, mas também a exclusão de uma massa pouco qualificada, em uma realidade, muitas vezes, difícil de superar.

Em primeiro lugar, vale salientar, que a cibercultura no trabalho emerge como condição sine qua non para um mundo de economia global. Contudo, ao primar por produtividade e complexidade, sua operacionalização requer uma hiperqualificação, somente detida no Brasil, por parte minoritária da população. Dessa forma, a parcela desprovida de capacitação envolve o que Marx chamou de “superpopulação relativa”, ou seja, a mão de obra precarizada, “uberizada” e por vezes relegada ao subemprego. De todo modo, é uma cultura de desenvolvimento, mas que reproduz as anomias presentes em sociedade.

Por outro lado, o aparato da cibercultura é requerido de forma veemente nos mais variados âmbitos, desde o agronegócio no campo até as startups e microempresas urbanas. De fato, conforme o pensador Pierre Levy, se esse modo de produção vier acompanhado das condições necessárias à transformação de realidade da vida das pessoas, deixa de servir como um projeto de exploração e passa a trabalhar pela integração social, por meio da conectividade, inventividade e tecnologia. Logo, faz-se necessário viabilizar o caráter transformador da cibercultura, dando novo sentido, assim, ao ambiente de trabalho e relações sociais.

Destarte, é fundamental para a resolução dessa problemática, que se institua, pelo Ministério da Educação e Secretaria Nacional de Previdência e Trabalho, um projeto que objetive transversalizar a cultura digital nas diversas estruturas sociais, desde as escolas básicas até as empresas. Dessa forma, a inclusão de disciplinas de tecnologia e especializações técnicas, o financiamento de projetos e o subsídio à educação continuada no trabalho serviriam de estímulo às pessoas nas diferentes fases da vida, criando uma cultura que alie desenvolvimento tecnológico e pessoal. E, assim, evita-se repetir o exemplo de Ben, preterido por não acompanhar uma prática atual e eficiente para a ascensão profissional e humana.