A importância da cultura digital no mercado de trabalho

Enviada em 20/07/2020

É possível, por intermédio da linguagem simples e coloquial do poema “No meio do caminho”, de Carlos Drummond de Andrade, fazer uma analogia a respeito do aumento da jornada de trabalho ocasionada pelas novas tecnologias. Acerca de tal análise, pode-se ligar a pedra, presente na obra drummondiana, à crescente repercussão e manifestação da problemática no cotidiano dos brasileiros. Ainda, constata-se que o revés está atrelado não somente às peripécias dos novos tempos, mas também à inoperância estatal.

De início, irrompida em meados do século XX, a Terceira Revolução Industrial trouxe para a humanidade inúmeros avanços. Em conjunto com as inovações tecnológicas, as transformações das relações sociais se configuraram como elementos característicos dos novos tempos, os tempos líquidos, termo proposto por Zygmunt Bauman, que designa o atual estágio da sociedade contemporânea. Tais aspectos, todavia, têm possibilitado um remodelamento nas mais variadas áreas do mercado de trabalho, a exemplo, tem-se o desenvolvimento da cultura digital, fenômeno esse responsável por prolongar a jornada de trabalho. Posto isso, medidas devem ser adotadas com o intuito de minimizar os impactos negativos advindos desse cenário.

Outrossim, pontua-se o desleixo governamental como precursor do agravamento da situação. No livro “Ética a Nicômaco”, Aristóteles defende que a política serve para garantir o bem-estar dos cidadãos. Porém, o descaso das autoridades públicas, em relação a criação de leis que coíbam o uso indiscriminado da tecnologia como ferramenta para o aumento da carga horária de trabalho, fomenta a atual inadimplência do Estado em solucionar essa mazela social. Porquanto, consoante o economista Marcio Pochmman, há uma intensificação e uma extensão das jornadas laborais, pois não há controles para além do próprio local de trabalho. Dessa forma, verifica-se a necessidade de uma reformulação nos valores e nas ações político-sociais, a fim de que o axioma aristotélico retorne ao cerne dos princípios governamentais e as consequências dos acontecimentos supracitados possam ser mitigados.

Logo, para que o triunfo sobre o aumento da jornada de trabalho proporcionado pelas novas tecnologias seja consumado, urge que o Superministério da Cidadania, por meio dos recursos enviados pelo Estado, promova a criação de leis trabalhistas, de modo a impedir a exploração aos trabalhadores. Ademais, essa ação deverá ser posta em prática mediante fiscalizações e ouvidorias públicas, com o fito de garantir os direitos do cidadão. Ainda assim, debates devem ser realizados e ideias discutidas, para que possa haver de fato uma incorporação correta da cultura digital e essa funcione como ferramenta amplificadora da produtividade. Dessarte, a pedra poderá ser removida do caminho social.