A importância da cultura popular na construção e na valorização da história brasileira

Enviada em 27/09/2020

Em seu livro “O triste fim de Policarpo Quaresma”, o escritor pré-modernista Lima Barreto constrói um personagem principal apaixonado pela cultura popular brasileira, o qual busca pela sua valorização em território nacional. Saindo do aspecto literário, percebe-se, tristemente, que tal aclamação do protagonista não é uma realidade brasileira, visto que a desvalorização de manifestações folclóricas é uma marca do Brasil. Sendo assim, torna-se pertinente uma análise criteriosa acerca da importância da cultura popular na construção e valorização da história nacional, bem como as ideias retrógradas e preconceituosas do povo brasileiro no que tange a sua manifestação.

Convém pontuar, de início, que a necessidade de reconhecimento da cultura popular não é recente no Brasil. Isso porque, ainda em 1922, houve a Semana de Arte Moderna brasileira, a qual propôs a valorização da cultura nacional e construção da identidade brasileira por meio de obras marcadas por elementos folclóricos. Assim, nota-se a importância dessas manifestações populares para o entendimento crítico da história do país, a qual se constitui como uma fusão de três culturas distintas- a branca, a negra e a indígena- que merecem ter reconhecido o seu papel na formação do caráter brasileiro.

Outrossim, é imprescindível ressaltar o preconceito enraizado socialmente no que diz respeito ao folclore brasileiro. Sobre isso, cabe destacar o conceito de “capital cultural” do sociólogo francês Pierre Bourdieu, o qual afirma que diferentes classes e grupos sociais deixam suas heranças culturais aos seus descendentes, entretanto nem todos esses legados são reconhecidos, pois não possuem o status social aceito pelas classes dominantes. Dessa forma, devido a tais concepções retrógradas, desenvolve-se, infelizmente, um “apartheid cultural” no Brasil, ou seja, a marginalização das culturas consideradas inferiores  a fim de valorizar uma cultura elitista e classista.

É possível perceber, portanto, a urgência de medidas capazes de promover a valorização da história brasileira através do reconhecimento do folclore nacional. Logo, compete ao Ministério da Educação, em sinergia com as Secretarias Educacionais, fomentar o ensino das expressões artísticas populares, desde a mais tenra idade, mediante aulas específicas sobre a cultura popular nacional, em conjunto com palestras e atividades lúdicas, ministradas por sociólogos e antropólogos, com o fito de formar um cenário de apreciação da pluralidade cultural, como também de conhecimento analítico acerca da história do país. Somente assim, a paixão do personagem de Lima Barreto não estará restrita à ficção.