A importância da cultura popular na construção e na valorização da história brasileira

Enviada em 10/11/2021

Em sua obra “O Povo Brasileiro”, o antropólogo brasileiro Darcy Ribeiro se debruça sobre as questões da formação etnico-cultural do Brasil. Baseando-se na ideia de três matrizes formadoras do país (portugueses, indígenas e africanos), Ribeiro defende que a sociedade brasileira não possui uma democracia racial, como defendido anteriormente por Gilberto Freyre. Para ele, as identidades europeias desenvolveram um processo de apagamento das raízes dos outros povos que aqui estavam e  que para cá foram trazidos, por meio de um etnocídio e de uma miscigenação violenta. Tal fato reverbera até hoje no dia a dia das relações sociais e institucionais brasileiras, atestando um cenário de silenciamento e desvalorização de diversas manifestações populares e identitárias.

À priori, é importante pontuar que o processo de colonização lusitano se fundamentou em interesses econômicos e religiosos, onde as vantagens para a colônia estavam acima de qualquer outra necessidade. A política de exploração se firmou no ato de imposição do trabalho forçado para indígenas e, posteriormente, aos escravizados vindos da África e, com isso, os costumes, línguas e religiôes  originais desses povos também foram consumidos aos poucos e deram lugar a uma mistura que, no fim, fora imposta pelos portugueses e que perpetuaria (e ainda perpetua) um apagamento do que de fato é formado o Brasil. A aversão ao que vem dessas camadas pode ser vista nos casos de intolerância religiosa, por exemplo, principalmente sofridos pelos seguidores de  matrizes africanas, com a Umbanda e o Candomblé. Essa realidade é cruel e demonstra como a ideia de uma diversidade imensa e plural não é tão real na prática.

Outrossim, entende-se que tal processo de desvalorização das raízes brasileiras também perdura na constante e crescente globalização, que gera uma grande assimilação cultural e consequente hegemonização pautada nos ideais Europeus e Norte-Americanos. Séries como “Cidade Invisível” (inspirada no folclore brasileiro) e “Sintonia” (narrativa do dia a dia periférico), são grandes tentativas de aumentar a visibilidade de características populares, mas ainda se mostram insuficientes diante da dimensão da problemática, que deve ser pensada e combatida de forma estrutural e mais abrangente.

Logo, faz-se necessária uma ação conjunta da Secretaria Especial de Cultura, do Ministério da Educação e do Ministéiro da Cidadania no desenvolvimento de um plano educacional e social de abrangência nacional. Dentro desse plano, estaria a criação de uma disciplina obrigatória para o Ensino Fundamental e Médio, chamada “Antropologia Socio-Cultural Brasileira”, onde seria estudada toda a história da formação da sociedade brasileira tendo como base os povos que nela estão presentes, afim de promover entendimento e valorização de sua  importância  para a identidade popular.