A importância da educação financeira na vida do cidadão
Enviada em 14/06/2020
“Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis”, foi com essas palavras que Brás Cubas, personagem criado por Machado de Assis, discorreu sobre seus desperdícios exacerbados quando jovem, os quais seu pai tivera de intervir para não culminar em um endividamento mais grave. Embora seja uma obra ficcional, tal situação, propiciada por uma má educação financeira, tem convergido à realidade de uma vasta camada da população brasileira. Nesse sentido, tal problema ocorre não apenas devido ao cenário educacional, que ainda não fornece embasamento a respeito da gestão de finanças, mas também ao recrudescimento de uma cultura cujo o ideário é a ostentação.
Primeiramente, é imperioso pontuar a defasada educação ofertada nas escolas como um fator preponderante no que concerne à sedimentação do debilitado modelo de gestão financeira de diversos brasileiros. Isso ocorre, pois, uma vez que substancial parcela populacional não é ensinada a ler criticamente textos publicitários, ou, por exemplo, a gerir seus orçamentos, as compras por impulso passam alcançar amplitudes cada vez maiores e o endividamento, uma consequência. Nesse sentido, a falta de instrução torna as pessoas não críticas e incapazes de fazerem do consumo um momento de lucidez, ao passo que as afastam da libertação proposta por Immanuel Kant, quando diz que o ser humano não é além do que a educação faz dele.
Sob outro ângulo, é imperativo ressaltar que o desejo crescente de ostentar produtos de preço elevado cristaliza certa distância entre os brasileiros e um modelo de vida sem inadimplência. Dentro desse contexto, a mentalidade de possuir bens suntuosos é fruto da Indústria Cultural, fenômeno proposto pelos sociólogos Adorno e Horkheimer, o qual prega que o capitalismo transforma obras artísticas em produtos fáceis de serem consumidos, fornecendo recursos audiovisuais que magnetizam a sociedade a almejar o que veem. Esse panorama se evidencia, por exemplo, nos clipes de funk, os quais mostram produtos caros e desenvolvem, no imaginário das pessoas, necessidades utópicas (como carros e joias), embora os valores ultrapassem a capacidade financeira. Dessa forma, é substancial o conhecimento acerca das fantasias produzidas pelo capitalismo.
Depreende-se, portanto, que a má educação financeira, no Brasil, é fruto tanto da má formação escolar, quanto do desejo de ostentação, e necessita de alteração imediata. Para tanto, o Ministério da educação - ramo do Estado responsável pela formação civil - deve inserir, nas escolas, como um tema transversal, projetos transdisciplinares que abordem ferramentas da educação financeira, tal como saber fazer orçamentos, ler com criticidade as propagandas e conhecer o básico da macroestrutura econômica. Assim, a nova geração obterá êxito no conhecimento e compartilhá-lo-á em família.