A importância da educação financeira na vida do cidadão
Enviada em 12/11/2021
Em “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, o personagem Fabiano, pobre e analfabeto, desconfia que seu patrão paga menos que o combinado quando recebe seu salário. No entanto, incapaz de averiguar a quantia, pois não sabe contar, permite ser manipulado pelo seu senhor. Infelizmente, na realidade atual brasileira, essa denúncia do grande autor modernista ainda é relevante, visto que a carência generalizada de educação financeira induz 70% da população ao endividamento, segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC). Logo, torna-se preciso analisar as peculiaridades da conjuntura atual que atribuem importância a esse tema e como o Estado falha em sua efetivação.
Mormente, é óbvio que há mudanças sociais recentes que demandam dos jovens um conhecimento maior sobre finanças. Acerca disso, o Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE) divulgou que, em 2021, subiu em cerca de 8% o número de estagiários e aprendizes no País. Isso demonstra que há cada vez mais adolescentes com renda própria, o que, por sua vez, gera a necessidade de educar essa população a como lidar com esse mercado de trabalho cada vez mais precoce. De fato, uma abordagem financeira eficiente nas escolas possibilita, inclusive, que os jovens adquiram independência financeira e não dependam da renda familiar, já precária entre milhões de famílias no Brasil.
Entretanto, a solução atual apresentada pelo governo federal apresenta-se como inadequada ao contexto escolar. Tal situação se justifica, pois a aprovação da educação financeira como parte da BNCC, em 2017, prevê apenas atividades supérfluas, como ensinar aos alunos a interpretar boletos e carnês, que não fazem parte, a priori, do dia a dia dos mais novos. Com efeito, muito melhor seria se as crianças aprendessem a organizar a mesada ou a como investir o dinheiro da turma através de rifas, por exemplo. Embora o currículo atual tenha seu valor, já que a geração de hoje, um dia, realmente lidará com boletos, é sabido, desde Paulo Freire, que alunos aprendem melhor com situações mais próximas de seu cotidiano. Portanto, há brecha para melhora nessas políticas.
Destarte, exploradas a conjuntura e as deficiências do plano atual, cabe ao Ministério da Educação, mais precisamente, ao Comitê Nacional de Educação Financeira (Conef), revisar a abordagem desse tema no currículo do ensino básico, por meio de consultas com a população via audiências públicas, especialmente em cidades que, segundo o IBGE, possuam um baixo IDHM (Índice de Desenvolvimento Humano Municipal), de forma a corrigir as dissonâncias entre o conteúdo e as reais necessidades dos jovens em cada localidade. Desse modo, será possível criar um futuro no qual pessoas, como o Fabiano, não só saibam contar dinheiro, mas também multiplicá-lo.