A importância da educação financeira na vida do cidadão

Enviada em 18/11/2021

Na seminal obra “A grande transformação”, o economista Karl Polanyi apresenta a moeda como uma ficção, que apenas tem valor porque todos acreditam nisso, mas, ao longo do tempo, tornou-se o bem mais desejado pela capacidade de se converter em qualquer outra mercadoria. No Brasil contemporâneo, essa realidade não é diferente, pois todos o cobiçam, entretanto, poucos são os que sabem lidar com ele, uma vez que a educação financeira, importante instrumento de garantia de bem-estar e autonomia, advindos da administração dos fluxos monetários, é pouco difundido. Esse cenário antagônico é fruto tanto da negligência estatal, quanto de ideias prevalentes na sociedade, cuja análise faz-se necessária visando reverter esse insidioso cenário.

A princípio, deve-se observar o papel da incúria governamental como entrave à formação financeira. Sobre isso, conquanto a Constituição Federal de 1988 estabelecer que a educação é direito de todos, dever do Estado e objetiva, entre outros, o pleno desenvolvimento da pessoa, o Estado descuida do letramento financeiro dos estudantes. Percebe-se isso no fato desse basilar saber constar nos currículos escolares somente a partir de 2017, como tema a ser tratado nas aulas e sem constituir uma disciplina autônoma, que instruísse comportamentos como poupança ou planejamento. Assim, a falta de conhecimento suficiente concorre para os quase 60 milhões de inadimplentes – dados do Serviço Proteção ao Crédito –, advindos da inércia do governo em conferir relevância adequada a esse tema.

Outrossim, é igualmente imperioso notar o papel de hábitos disseminados no corpo social como obstáculo à instrução monetária. Nesse diapasão, o sociólogo Emile Durkheim apontava a centralidade de instituições, como a igreja, na socialização das pessoas. Sob essa ótica, o catolicismo conformou pensamentos, como a visão estigmatizada do lucro, dos juros e do dinheiro, tratados no pecado venial da avareza. Em razão disso, ter uma atitude proativa com suas próprias finanças, não raro, é desvalorizado, consistente com dados em que quase a metade dos jovens, de 18 a 25 anos, afirmam não controlar sua contabilidade pessoal, segundo pesquisa Serasa Experian. Logo, esse aspecto social diminui o alcance dessa auspiciosa medida pela carga negativa que incorpora na relação com haveres.

Urge, portanto, que alternativas sejam encontradas para reversão desse quadro. Dessarte, o Ministério da Educação deve criar programa de fomento ao ensino econômico – denominado “Controle suas finanças” – com o fim de criar cursos gratuitos para jovens e adultos e de disciplinas próprias nas escolas, todos com essa temática, além de capacitar professores. Tal iniciativa seria feita através de convênios com estados e municípios, além de ações na mídia para desmistificar a relação da população com seu numerário. Com isso, todos conviveriam melhor com o ambicionado dinheiro.