A importância da literacia familiar em debate no Brasil
Enviada em 22/11/2020
Consoante Émile Durkheim, sociólogo francês, a sociedade, assim como um “corpo biológico”, é composta por partes que interagem mutuamente. Assim, para que essa entidade se mantenha harmônica, é necessário que os direitos dos cidadãos sejam assegurados. Nesse viés, dado que a linguagem é medular às interações sociais, a privação da leitura, sobretudo na infância, subverte essa conjuntura. Em suma, essa atividade configura um eficaz meio de aquisição do conhecimento, fundamental ao desenvolvimento humano. Assim, a exiguidade desse exercício no Brasil é, também, fruto da desídia do Governo.
Precipuamente, a historiografia humana denota os livros como instrumentos de saber e poder. Prova disso foi o monopólio, durante a Idade Média, da leitura, pondo os demais estratos socias aquém das informações escritas. De maneira análoga, hodiernamente, empecilhos à prática de ler, como a dificuldade no acesso aos livros, acabam por marginalizar a população, principalmente as famílias mais desabastadas, em relação à literatura. Desse modo, dada a capacidade emancipatória da linguagem escrita, a escassez de uma cultura de incentivo ao apego às obras literárias acaba por perenizar um cenário que dispõe os não leitores em detrimentos dos que cultivam esse hábito.
Faz-se mister, ainda, salientar a displicência governamental como impulsionadora do problema. Conforme o artigo 3 da Carta Magna de 1988, é incumbência estatal atestar uma sociedade livre e justa, propiciando o bem de todos. Nessa perspectiva, uma vez que os textos são instrumentos disseminadores de educação acerca dos mais variados tópicos, a carência, por parte do Estado, do fomento à literacia familiar tende a acentuar as inequidades da sociedade brasileira. Sob tal ótica, essa realidade ultraja o que, segundo o iluminista John Locke, são direitos inalienáveis do homem, a vida e a liberdade.
Portanto, é fulcral uma tomada de medidas que solucionem esse impasse. Assim, cabe ao Ministério Público Federal, por intermédio de políticas públicas, tal como a disponibilização periódica e gratuita de livros às famílias carentes, incentivar a leitura nesses núcleos. Destarte, pode-se facilitar o alcance da população periférica aos livros. Ademais, como dito pelo economista francês Robert Turgot, o princípio da educação é pregar com o exemplo. Logo, o Ministério da Educação deve promover nas escolas, feiras literárias com o oferecimento franco das obras aos alunos, a fim de permitir que a sociedade, de fato, funcione como o corpo biológico descrito por Durkheim.