A importância da literacia familiar em debate no Brasil

Enviada em 13/11/2020

A célebre frase “no meio do caminho tinha uma pedra”, cunhada no poema de Carlos Drummond, retrata as intempéries que surgem na jornada do eu lírico, as quais, metaforizadas como pedras, obstruem o percurso de sua vida. Fora da ficção, tal poesia se reflete no contexto atual, já que, no meio do caminho da importância da literacia familiar brasileira, existem pedras. Diante dessa perspectiva, é preciso assumir a postura de um geólogo, com a intenção de analisar as medidas que precisam ser aplicadas para que as rochas, ora da negligência governamental, ora das desigualdades, sejam levadas ao intemperismo.

Vale destacar, de início, que a desídia governamental contribui para o pouco hábito de literacia familiar. Isso porque, segundo Aristóteles, em seu livro “Ética a Nicômaco”, “a política existe para preservar a felicidade da nação”. No entanto, o cenário atual rompe com o ideal proposto pelo filósofo, visto que, as pesquisas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), de 2020, apontam: o programa federal Conta Pra Mim – valoriza a leitura entre pais e filhos – não alcançam a todos os setores populacionais, o que impede o desenvolvimento cognitivo e interação verbal de milhões de crianças. Desse modo, evidencia-se que essas patologias constituem um atendado às instituições democráticas, em função de transgredirem preceitos constitucionais.

Faz–se mister, ainda, salientar a desigualdade como empecilho para a leitura infantil. Isso pode ser explicado pelo fato da coletividade nupérrima viver em um “Estado de Anomia”, definido pelo sociólogo Émile Durkheim como um espaço de profundo descontrole social, em virtude da vulnerabilidade socioeconômica. Em consequência disso, conforme pesquisa da Academia Brasileira de Letras, de 2020, somente 12% dos nordestinos possuem acesso às obras literárias, outrossim, a prática de literacia familiar é costume rotineiro perante as famílias de classe média, fator que acarreta um hiato enorme entre a alfabetização de crianças de diferentes grupos sociais. Dessa maneira, denota-se a importância do engajamento do Estado em pregar por um campo educacional mais plural e igualitário.             Portanto, com o intuito de promover a literacia familiar no Brasil, cabe ao Ministério da Educação (MEC), mediante parceria com as escolas, implementar uma disciplina voltada para a prática da leitura entre pais e filhos, a fim de garantir o desenvolvimento cognitivo das crianças. Ademais, tais ações devem ser democratizadas. Isso pode ser feito a partir de convenio entre o MEC e livrarias privadas, com a instalação de bibliotecas públicas nas regiões mais carentes do país, com a finalidade de despertar o costume literário e igualitário. Destarte, o caminho tornar-se-á livre, pois, como disse a poetisa Cora Coraline: “Com as pedras atiradas, construí a minha obra”.