A importância da literacia familiar em debate no Brasil
Enviada em 13/11/2020
No livro “Fahrenheit 451”, do escritor Ray Bradbury, é retratado um futuro distópico em que os livros são constantemente queimados, devido ao poder que eles têm de formar uma sociedade crítica. Nesse sentido, essa obra mostra, sem dúvidas, a contribuição da leitura para impedir a formação de indivíduos alienados. Desse modo, é evidente a importância do debate acerca da literacia familiar - hábito de ler para os filhos -, uma vez que ela é fundamental para o desenvolvimento autônomo da criança, embora essa prática ainda enfrente como obstáculo as extremas disparidades sociais existentes no Brasil.
É imprescindível destacar, de início, o poder transformador desse costume. Nessa perspectiva, de acordo com o pedagogo Paulo Freire, em sua obra " Pedagogia da autonomia", a educação, que pode ser feita majoritariamente através da leitura, torna o indivíduo emancipado, capaz de agir com discernimento e com criticismo e de pensar por conta própria. Dessa forma, a literacia, por proporcionar ao cidadão o seu desenvolvimento integral e compatível com uma ordem social, mostra-se, indubitavelmente, como necessária para uma coletividade mais justa e harmônica, haja vista a sua capacidade intrínseca de formar sujeitos conscientes e autônomos.
Ressalta-se, contudo, as diferenças sociais entre as camadas da população. Nessa lógica, é válido enfatizar que o Brasil é um dos países mais desiguais, o que pode ser comprovado pela sua elevada posição no índice de Gini - indicador que mede a concertação de renda dos Estados. Assim, uma nação em que frequentemente direitos básicos são negados a uma expressiva parcela populacional, a exemplo de saneamento, água potável e até mesmo alimentação, torna-se improvável a introdução efetiva desse hábito em famílias, muitas vezes, marcadas pela miséria. Logo, apesar de ser um ato de grande valor, o cenário atual brasileiro não se mostra apto à adesão adequada dessa prática, em virtude da indignante situação à qual seres humanos são expostos diariamente.
Depreende-se, portanto, a necessidade de adaptar-se a realidade do país à inserção desse hábito. Posto isso, com o objetivo de melhorar as condições socioeconômicas da sociedade, a fim de, a partir disso, ser possível uma concreta implantação da literacia, é fundamental que o Ministério do Desenvolvimento Econômico e Social intensifique e crie novos projetos de redução da vulnerabilidade existente no país, principalmente em regiões caracterizadas pela pobreza, como Norte e Nordeste. Isso deve ser feito por meio do envio de verbas estatais - as quais devem ser requeridas junto à Secretaria do Tesouro Nacional - para a elaboração e fortalecimento de iniciativas que visem a mitigar a desigualdade social, a exemplo do Programa Bolsa Família. Espera-se, com isso, que, como defendido por Freire, a educação possa construir uma coletividade mais justa e igualitária.