A importância da literacia familiar em debate no Brasil

Enviada em 14/11/2020

Segundo o neuropaleontólogo Richard Leakey, o cérebro humano tem um tamanho maior que o de outros seres vivos justamente para lidar com os mecanismos comunicativos. Assim, verifica-se que as habilidades linguísticas estão diretamente ligadas ao desenvolvimento cognitivo e social de uma pessoa. Nesse sentido, o estímulo ao debate sobre a literacia familiar instaurado pelo projeto “Conta pra mim” do Ministério da Educação (MEC) no Brasil representa um grande avanço para que as crianças usufruam dos benefícios da linguagem. No entanto, ainda existe a necessidade de políticas públicas que insiram as escolas como participantes desse processo pedagógico.

Primeiramente, é necessário ressaltar a relevância que a literacia familiar - conjunto de práticas que visam estimular o desenvolvimento da fala, da escrita e da leitura - possui para o sucesso da criança. Conforme dito pelo sociólogo Pierre Bordieu, hábitos sociais que são incorporadas pelos indivíduos desde a infância podem ser internalizadas a tal ponto que passam a ser percebidas como naturais por eles. Desse modo, infere-se que estimular uma criança a ler, dialogar e escrever como parte da rotina dela pode levá-la a desenvolver mais facilmente o gosto pela assimilação de informações. Logo, têm-se que ela terá maior chance de construir uma ótima carreira como estudante e como profissional.

No entanto, apesar das políticas atuais já promoverem a literacia familiar e apresentarem bons resultados, é necessário expandir esses programas inserindo as pré-escolas como participantes. De acordo com James Heckman, economista homenageado com o prêmio Nobel, o investimento efetivo na alfabetização envolve uma ação coordenada entre as famílias e os centros educacionais infantis. Entretanto, nota-se que essa conexão entre o ambiente familiar e o escolar ainda é frágil no Brasil, principalmente nos casos dos cidadãos de classe baixa. Estes, seja por morarem em locais sem acesso às escolas, seja pela longa jornada laboral, optam por não levar os filhos a tais instituições de ensino.

Portanto, urge que o MEC, em parceria com o Ministério da Infraestrutura, atue expandindo as políticas de estímulo à literacia inserindo as escolas no processo. Essa ação deverá ser realizada não só por meio do uso de verbas públicas para a construção de creches e pré-escolas em bairros carentes, mas também mediante a instituição de atividades educativas que aproximem pais e filhos nesses centros educacionais. A título de ilustração, pode-se implementar gincanas e salas de leitura disponíveis nos domingos como forma de lazer para as famílias, visto que é um dia no qual há maior disponibilidade dos responsáveis. Com essas medidas, será possível obter o efeito social relacionado à uma disseminação do debate acerca da temática e uma potencialização dos benefícios da literacia para os pequenos cidadãos.