A importância da literacia familiar em debate no Brasil
Enviada em 15/11/2021
De acordo com o filósofo John Locke, os seres humanos nascem como uma tábula rasa, isto é, uma folha em branco que será preenchida com as experiências vivenciadas no dia a dia. Entretanto, a frágil prática da literacia familiar no Brasil vai de encontro à efetivação dessa teoria, de modo que restringe o pleno desenvolvimento das crianças. Nesse viés, dois fatores devem ser analisados: o papel da educação centrado na escola e a desigualdade social vigente no país.
A priori, é importante ressaltar o quanto a ideia de que a escola é a única responsável pelo processo educativo dos indivíduos é um entrave para a prática da literacia familiar. Isso ocorre porque muitos pais se eximem da responsabilidade de engajamento na educação das crianças por acreditarem que esse não é o seu papel. Dessa maneira, nota-se que o desenvolvimento das crianças é prejudicado, pois o “aprender” torna-se algo restrito ao ambiente escolar. Nesse sentido, há uma contradição, pois sabe-se, sociologicamente, que o processo de socialização primária ocorre com a família e, posteriormente, com a escola. Logo, é visível a importância da participação ativa dos responsáveis na educação das crianças para formar vínculos de aprendizagem mais sólidos.
Outrossim, é válido mencionar que a desigualdade social no país é mais um agravante para essa celeuma. Nesse âmbito, embora o Ministério da Educação tenha criado o projeto “Conta pra mim”, o qual dispõe de diversos recursos educacionais, desde orientações sobre o que é literacia familiar até uma biblioteca virtual, convém pontuar que apenas essa ação não é eficaz para estimular o engajamento das famílias no processo educacional das crianças. Constata-se essa realidade por meio de dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os quais mostram que 1 em cada 4 pessoas não tem acesso à internet. Por conseguinte, nota-se que ao disponibilizar um recurso online, deve-se garantir, anteriormente, que todos terão acesso a essa ferramenta, para que a ação seja, de fato, efetiva.
É evidente, portanto, que medidas são necessárias para estimular a valorização da literacia familiar no país. Para isso, cabe ao Ministério da Educação instituir em todas as escolas o projeto “Família engajada”. Isso deve ser feito por meio de aulas semanais, nas quais os pais ou responsáveis devem relatar sobre a sua vivência da literacia familiar e expor dúvidas sobre o assunto, com o fito de estimular a prática da responsabilidade compartilhada entre família e escola. Atrelado a isso, o Ministério da Economia, com base nos dados do IBGE, deve oferecer incentivos fiscais às empresas que garantirem o acesso à internet, sobretudo para as famílias mais vulneráveis, a fim de garantir a inclusão destas em projetos como o “Conta pra mim”. Assim, a tábula rasa de cada cidadão será preenchida.