A importância da literacia familiar em debate no Brasil

Enviada em 17/11/2020

No livro “A Bela e a Fera”, o antagonista Gaston afirma que a leitura é prejudicial à protagonista Bela, pois a faz pensar e ter ideias. Analogamente ao universo fictício, a construção de um senso crítico está em perigo na realidade brasileira, uma vez que a literacia familiar tem sido negligenciada. Nesse sentido, dois aspectos são relevantes: a desigualdade social e a alienação de jovens.

Em primeiro lugar, existe uma discrepância entre as camadas da sociedade no acesso à hábitos de leitura e escrita. Segundo a teoria da “tábula rasa” idealizada pelo filósofo inglês John Locke, todos os seres humanos nascem iguais, a mente é como uma página em branco que vai sendo preenchida através da experiência. Nesse contexto, encontra-se a importância da literacia para o desenvolvimento humano, tanto individual, quanto coletivo. Contudo, famílias de classes sociais menos favorecidas apresentam menos tempo disponível e menor poder financeiro para se dedicarem a ler e escrever. Com isso, os mais pobres terão maiores dificuldades na produção de uma consciência crítica e, por consequência, maiores desvantagens em relação à pessoas com maior nível de letramento.

Em segundo lugar, a alienação do indivíduo é um obstáculo à literacia familiar. De acordo com o conceito de “indústria cultural” criado pelos filósofos alemães Theodor Adorno e Max Hokheimer, por intermédio de uma cultura de massa, a mídia busca manipular comportamentos visando o lucro. Desse modo, crianças e adolescentes, que são mais facilmente influenciáveis, têm preferido navegar na internet ou assistir televisão do que produzir um texto ou ler um livro. Por conseguinte, essa exposição exacerbada às mídias digitais leva esses jovens a perda da criticidade individual, fator que contribui para problemas de interação e desenvolvimento em diversos contextos sociais.

Portanto, constata-se que a literacia em família vem sendo colocada em segundo plano, configurando-se como um problema na sociedade brasileira. Sendo assim, é preciso que o Estado, que é responsável pela gestão dos recursos, financie a abertura de bibliotecas públicas em áreas carentes, o que possibilita o acesso dos menos privilegiados, por meio de parcerias com editoras e ONGs ligadas à educação. Além disso, o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, que é encarregado da destinação da verba, deve realizar eventos culturais, como oficinas e minicursos, que abordem a importância da criação de textos e da leitura, mediante a criação e execução de um plano nacional de incentivo à literacia no ambiente social. As ações propostas têm como finalidade promover o interesse das pessoas pelo mundo dos livros e, consequentemente, estimular o hábito de ler e escrever entre os familiares.