A importância da literacia familiar em debate no Brasil
Enviada em 19/11/2020
No livro “Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury, entende-se a importância da leitura e como o totalitarismo e a opressão anti-intelectual retiram todo senso crítico de um cidadão, transformando-o em um ser robotizado e pronto para gerar lucro ao Estado. De maneira análoga, apesar de não estar em um regime totalitário, o povo brasileiro não possui a cultura da literacia familiar, visto que, para uma grande parcela da população, o principal objetivo é tornar-se mão de obra. Relacionado a isto, está a falta de políticas públicas efetivas que busquem incentivar e democratizar o acesso à leitura, desenvolvendo melhor o senso crítico e diminuindo as disparidades sociais no Brasil.
Em primeira análise, vale ressaltar que a leitura compõe a base para a formação cultural e social de um cidadão, haja visto que assim ele pode reconhecer o seu poder de mudança no meio social em que está inserido. Dessa forma, como é apresentado pelo filósofo contemporâneo Pierre Bourdieu em sua obra “Violência Simbólica”, aquele que possui maior repertório cultural e, consequentemente, intelectual está tendenciado a estar acima socialmente e a exercer uma violência simbólica sobre os demais. Dessarte, a precariedade no incentivo à leitura familiar está diretamente ligada a hierarquização da sociedade e, para que maiores mudanças venham, medidas que auxiliem a literacia são obrigatórias.
Outrossim, consoante o filósofo e professor Paulo Freire, “se a educação sozinha não muda a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda”. Logo, compreende-se que a educação, direito básico garantido na Constituição de 1988, tem papel fundamental para o progresso, sendo a leitura uma forma de auxiliar na efetivação desse direito. No entanto, não é possível identificar tal efetivação, mesmo que esta seja dever estatal, visto que a ausência de políticas públicas demonstra a não problematização do tema por parte do poder governamental. A partir desse pensamento, faz-se necessária a intervenção estatal e social para maior incentivo à literacia familiar.
Portanto, mudanças são necessárias para maior valorização da leitura na construção social. Desse modo, cabe ao Ministério da Educação e ao da Cidadania garantir o acesso literário desde a infância por meio de um programa social que vise a distribuição gratuita de livros literários de acordo com a faixa etária do leitor via Correios – visto que a acessibilidade à Literatura ainda não é igualitária – para que todos possam desenvolver a sua bagagem cultural e a sua visão de mundo. Analogamente, é dever das escolas e dos pais estimular uma rotina literária nas crianças por intermédio de projetos escolares, nos quais os alunos devem ler um livro semanalmente e, com o auxílio dos pais, criar resumos que possam ser articulados em rodas de conversas e discussões com a finalidade de desenvolver a leitura e o senso crítico desde o período escolar.