A importância da literacia familiar em debate no Brasil
Enviada em 26/11/2020
Brás Cubas, o defunto-autor de Machado de Assis, diz em suas “Memorias Póstumas” que não teve filhos e não transmitiu a nenhuma criatura o legado de nossa miséria. Talvez hoje ele percebesse acertada sua decisão: os pais brasileiros estão cada vez mais negligentes quanto a literacia familiar, tão importante prática, fundamental para superar esse legado. Assim, reverter esse quadro - que atinge sobretudo indivíduos vulneráveis – tornar-se-á a nova geração mais qualificada.
É valido considerar, antes de tudo, a desigualdade social brasileira. Muitas vezes, excluídos socioeconomicamente, uma simples leitura para os filhos é uma tarefa impossível. De acordo com pesquisa do Comitê Gestor de Internet, cerca de 47 milhões de pessoas são excluídas digitais no Brasil. Com isso, projetos governamentais, como o “Conte pra Mim”, são ineficazes para a maior parcela do seu público alvo, visto que livros são disponibilizados no meio virtual. Em síntese, projetos efetivos são necessários para que os infantes desfrutem dos benefícios da leitura.
Ademais, as interações lúdicas são fundamentais para o desenvolvimento infantil. Nesse respeito, o filósofo Henry Wallon afirma que as trocas relacionais entre as crianças e seus familiares são fundamentais no amadurecimento subjetivo do pequeno. De fato, pedagogos como Cláudia Onofre confirmam que uma dessas interações é a leitura, pois aumenta a criatividade, aguça a imaginação, fortalece o vínculo familiar e contribui para a aprendizagem ao longo da vida. Dessa maneira, medidas são necessárias para que todos se beneficiem.
Urge, portanto, que a prática literacia chegue a cidadãos de baixa renda, ajudando na formação intelectual das crianças. Logo, a leitura deve ser incentivada, por meio do Ministério da Educação, que destinará uma maior verba para a expansão das bibliotecas de escolas públicas, além da criação das mesmas em locais marginalizados e de população carente, a fim de que eles tenham real chance de “competir”, nesse quesito, com classes sociais mais elevadas. Assim sendo, o futuro será de uma sociedade mais criativa – e um legado que Brás Cubas pudesse se orgulhar.