A importância da literacia familiar em debate no Brasil
Enviada em 10/12/2020
O poema “No Meio do Caminho", cunhado por Carlos Drummond, retrata as intempéries que surgem na jornada do eu lírico, as quais, metaforizadas como pedras, obstruem o seu percurso. Não obstante, é possível afirmar que a poesia de Drummond possui um caráter atemporal, o que permite sua expansão para o cenário hodierno: No meio do caminho para a importância da literacia familiar no Brasil, existem pedras. Diante dessa perspectiva, é necessário debater as medidas que precisam ser aplicadas para que as rochas, ora da falta de acesso às obras literárias, ora da ausência de incentivo familiar, sejam levadas ao intemperismo.
Mormente, ao observar a literacia familiar por uma ótica política, nota-se que a postura inatingível dos livros atua em seus moldes. Segundo Pierre Bourdieu, o que foi criado para ser instrumento de democracia não deve ser convertido em mecanismo de opressão. Tal preceito, análogo ao direito à educação previsto no artigo 6° da Constituição Federal, denota o papel governamental - como um instrumento de democracia - de garantir a acessibilidade aos livros, uma vez que a inexistência da prática de leitura nas famílias de baixa renda evidencia a lacuna estatal em cumprir seu dever. Esse déficit é percebido, sobretudo, por meio de dados do Instituto Pró-Livro, os quais apontam que 71% dos entrevistados com renda familiar de até um salário mínimo não compram literaturas. À vista disso, há a explícita conversão dos direitos cívicos em mecanismo de violação à cidadania.
Outrossim, é importante destacar que as providências do Estado apenas serão eficientes, caso sejam atreladas a um novo hábito social. De acordo com o diplomata Maquiável, as leis são impotentes diante dos costumes. Consoante ao seu pensamento, a falta de leitura familiar revela a indispensabilidade da criação de uma cultura que preconize a literacia, ao considerar que as ideias do sociólogo Talcott Parsons configuram a família como uma máquina produtora de personalidades humanas, nota-se que a mudança dessa mazela está intrínseca à construção de uma nova forma de agir nos lares brasileiros.
Portanto, faz-se imperativo que esses entraves sejam solucionados. Logo, urge que o Ministério da Educação e Cultura - MEC - democratize a prática, por meio de uma parceria público-privada com livrarias, de forma que estas aluguem livros por um preço simbólico aos alunos da rede pública, a fim de que as livrarias não sejam prejudicadas e maximize o acesso. Ademais, cabe ao MEC disseminar a importância da leitura aos pais dos estudantes, através de uma oficina de letras, ao trazer escritores brasileiros para uma mesa-redonda, de modo que as figuras parentais interajam com os autores. Destarte, a mudança de mentalidade ocorrerá nos lares e criará um costume literário. Assim, o caminho tornar-se-á livre, pois, como disse a poetisa Cora Coraline:“Com pedras atiradas, construí minha obra”.