A importância da literacia familiar em debate no Brasil

Enviada em 07/12/2020

No filme “Um Faz de Conta que Acontece” o personagem principal lê histórias para duas crianças que as imaginam como se fossem reais, de forma a encaixar os acontecimentos literários em seus cotidianos. É evidente, nessa obra cinematográfica, como a leitura desenvolve a criatividade e imaginação na tenra idade, sendo muito importante na educação e até mesmo na criação de laços entre aqueles que a realizam em conjunto. Infelizmente, no Brasil, a prática literária familiar, onde deve ser iniciada, é subestimada e pouco incentivada, além de ser dificultosa para famílias em condição de vulnerabilidade socioeconômica, que enfrentam desafios como a falta de acesso, altos preços dos livros e, inclusive, a analfabetização, ainda muito presente no país.

Em primeiro lugar, o livro no Brasil tornou-se um item caro, elitista e, consequentemente, excludente. A nova proposta governamental de taxação de 12% sob os livros, veiculada no site G1, somente comprova o fato. Nesse sentido, o acesso literário fica cada vez mais restrito às elites, ainda mais ao levar-se em conta que as bibliotecas públicas, que seriam uma forma de democratizar esse acesso, são escassas em diversas cidades do país e, quando presentes, ficam, muitas vezes, abandonadas, negligenciadas e com poucos livros disponíveis à população. Dessa maneira, praticar a literacia familiar torna-se uma realidade distante para muitos, o que dificulta o processo educacional de inúmeras crianças, uma vez que a literatura desenvolve significativamente as capacidades de aprendizado.

Em segundo lugar, o analfabetismo também é uma barreira para muitas famílias no Brasil. Carolina Maria de Jesus em seu livro “Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada” relata minuciosamente o contexto social em que vive, demonstrando que a capacidade de ler e escrever é algo raro em sua comunidade e, inclusive, para ela mesma, característica notável na obra. Ademais, ao mesmo tempo em que o hábito da leitura é, obviamente, impossível para esses indivíduos, para àqueles em que é possível tanto em nível educacional quanto econômico, é pouco praticado, em vista de ser pouco difundido no país e, muitas vezes, pela leitura ser vista somente como responsabilidade escolar, onde pode não despertar tanto entusiasmo nas crianças como seria com a família.

Portanto, é imprescindível que investimentos governamentais sejam voltados à educação e cursos alfabetizadores gratuitos às comunidades mais pobres. Além disso, o Ministério da Educação e da Cidadania, por meio de um projeto de lei a ser apresentado à Câmara dos Deputadas, deve cobrar a construção de bibliotecas públicas e aprimoramento das que já existem e reivindiquem, também, projetos escolares extracurriculares, semanalmente, com os alunos e suas famílias envolvendo a literacia familiar, para assim, difundir o papel da família no aprendizado das crianças brasileiras.