A importância da literacia familiar em debate no Brasil

Enviada em 10/12/2020

Com a invenção da imprensa no século XVI, surgiu, na Europa renascentista, a literacia familiar, permitindo que pais e filhos se unissem para ler um livro. Essa prática possibilitou, a partir de então, que os leitores se tornassem pessoas mais críticas, sociáveis e autônomas. Contudo, no Brasil contemporâneo, o hábito fundamental da leitura, especialmente em família, enfrenta obstáculos para sua plenitude. Nesse sentido, cabe analisar o estabelecimento de uma sociedade de não-leitores e as instabilidades do núcleo familiar, como causas da problemática em questão.

Em primeira análise, a perpetuação de conjunturas históricas evidencia a dificuldade dos brasileiros de adquirirem o gosto pela leitura. Isso porque, durante o Brasil Colônia, o privilégio de consumir um livro estava restrito à aristocracia, em detrimento do restante populacional que não possuía condições de  usufruir dessa  atividade, seja por dificuldades econômicas, seja pela inabilidade de ler.  Nesse viés, pode-se afirmar que essa marginalização histórica ainda é persistente na atualidade, caracterizando um cenário nacional em que as desigualdades econômicas e sociais prejudicam a prática literária na infância. Assim, enquanto tais disparidades se mantiverem, o Brasil será obrigado a conviver com um dos mais graves problemas para o exercício e a valorização da leitura: a limitação dessa atividade para poucos.

Em segunda análise, a fragilidade da estrutura familiar é um fator que torna o hábito de ler uma realidade distante. Sob esse aspecto, o livro " O Primo Basílio", escrito por Eça de Queiróz, retrata a corrupção da instituição familiar moderna, com a perda de seus valores e de sua função social de garantir um ambiente saudável para o desenvolvimento de seus membros. Visto isso, percebe-se que a descrição familiar apontada no romance se assemelha à condição dos lares brasileiros, tendo em vista as marcas de violência doméstica e a falta de afeto entre seus constituintes, características infelizmente evidentes no país. Dessa maneira, o desequilíbrio e a vulnerabilidade familiar colocam a literacia familiar em segundo plano, além de comprometerem as habilidades essenciais que essa prática é capaz de oferecer: sociabilidade, autonomia e criticidade.

Logo, medidas são cruciais para inserir o hábito de ler no Brasil. Portanto, faz-se necessário que o Governo Federal, na condição de garantidor dos direitos individuais,  incentive a leitura em família, por meio da elaboração de um projeto chamado “Bienal da juventude”, visando à distribuição de livros gratuitos a toda população. Dessa forma, será possível suprimir da nação brasileira o ideário de sociedade de não-leitores. Ademais, é indispensável que os pais ou responsáveis de cada núcleo familiar estabeleçam um ambiente doméstico estável em que os livros possam ser aproveitados.