A importância da literacia familiar em debate no Brasil

Enviada em 14/12/2020

Na série de livros Game of Thrones, o personagem Tyrion atribuía a sua inteligência aos livros. Leitor voraz, costumava dizer que a leitura lhe transmitia a experiência de “mil vidas”. Infelizmente, na sociedade hodierna, cada vez menos pessoas sente o efeito transformador dos livros. O brasileiro lê pouco, e um passo importante para mudar essa realidade é o estímulo desde a infância. Nesse sentido, a “literacia familiar” visa exatamente suprir essa lacuna, a partir do reconhecimento de que os pais são os primeiros professores de seus filhos. Todavia, a aplicação do conceito encontra obstáculos, que vão desde a conscientização dos próprios pais, até o engessado modelo educacional vigente.

A literacia familiar envolve um conjunto de práticas e experiências relacionadas com a linguagem oral, a leitura e a escrita, vivenciadas por intermédio dos pais ou responsáveis. Apesar de resultados positivos amplamente comprovados como o aumento da capacidade cognitiva, da linguagem oral e escrita, motivação para a leitura e muitos outros, é necessário a conscientização dos pais, que ainda vêem a escola como o único pilar responsável pelo desenvolvimento dessas habilidades nas crianças. Dessa forma, muito trabalho e pouco tempo em casa com os filhos termina por estimular nos pais a visão equivocada de que momentos tão preciosos com os pequenos precisam ser terceirizados.

Não é nenhuma novidade que o sistema educacional brasileiro se encontra profundamente desatualizado. As razões são muitas, principalmente no ensino público: a desvalorização do corpo docente em nada estimula esses profissionais a se reciclarem ou buscar novas formas de sedimentar o conhecimento. Ato contínuo, o acompanhamento dos alunos, quando muito, começa e se encerra na sala de aula. Ou seja, o intercâmbio entre pais e professores, extremamente útil para a prática da literacia familiar, que complementa de forma lúdica o conteúdo passado na escola, acaba impossibilitado pela desfuncionalidade de métodos educacionais ultrapassados e destimulantes.

Portanto, está claro que a educação no Brasil, com a exclusão dos pais do processo, termina por gerar uma alfabetização precária que afasta a criança dos livros. Logo, o Poder Público precisa atuar envidando esforços para mitigar essa realidade. Para tanto, o Ministério da Educação precisa investir em campanhas junto à mídia que conscientizem os pais do seu importante papel na educação dos filhos, apresentando a literacia familiar como ferramenta indispensável. O programa Conta pra Mim, já em curso e bastante promissor, necessita de mais divulgação por parte do Ministério. Da mesma forma, o MEC deve investir de forma efetiva na valorização do corpo discente, divulgando sobretudo, métodos inclusivos, a fim de que se mostre que é possível aplicar este método em todas as classes sociais. O objetivo não poderia ser outro: investir na educação como ferramenta de construção da cidadania.