A importância da literacia familiar em debate no Brasil

Enviada em 21/12/2020

Em função da pandemia no novo coronavírus, as aulas presenciais nas escolas foram suspensas, o que fez com que muitos pais se deparassem com um desafio: o ensino domiciliar. Dessa forma, durante o isolamento social, esses pais tiveram de reformular a rotina e dedicar um período do dia aos filhos, seja ajudando-os com as tarefas escolares, seja incentivando-os a criar o hábito de leitura. Por atribuírem essa responsabilidade à escola ou por não terem tempo disponível em função da rotina cansativa, muitos pais desconhecem a importância da leitura em família e o seu papel no desempenho escolar e na formação cidadã das crianças, uma situação a ser ponderada.

Entre os benefícios da literacia familiar para a criança estão o melhor aproveitamento acadêmico e o desenvolvimento de um senso crítico. A construção do hábito de leitura desde a primeira infância auxilia as crianças na vida escolar. De acordo com a profissional da área da pedagogia, Claudia Onofre, os infantes que chegam à sala de aula já com o hábito de leitura se mostram mais empáticos, participativos e criativos. É nesse cenário que se percebe a educação libertadora a qual o educador Paulo Freire se referia. O incentivo à leitura auxilia na formação não apenas acadêmica, mas também cidadã do indivíduo. A educação libertadora de Paulo Freire é justamente uma decorrência do hábito de ler - é o tipo de educação que emancipa e aprimora o senso crítico. Assim, o indivíduo que na infância foi incentivado à leitura, quando adulto, se torna um cidadão consciente de sua cidadania.

Em contrapartida, muitas vezes essas habilidades não são devidamente desenvolvidas, já que uma grande maioria dos pais atribui a responsabilidade do incentivo à leitura à escola ou, por conta das preocupações rotineiras, não dedicam parte do seu tempo aos filhos. Tal como foi dito pelo sociólogo Émile Durkheim, a escola é a segunda instituição mais importante no processo de formação de um indivíduo, porém, uma expressiva quantidade de pais a reconhece como sendo a primeira. Além disso, a sociedade do cansaço, termo cunhado pelo filósofo coreano Byung-Chul Han, ou seja, a sociedade marcada pelo excesso da exaustão, submete os indivíduos a uma rotina cansativa que, na maior parte das vezes, os priva de dedicar um período do dia aos filhos e à educação destes. Logo, por essas razões, a literacia familiar, em tempos não pandêmicos, é um feito quase surreal.

Portanto, a fim de aprimorar o desempenho escolar dos infantes e formar futuros cidadãos, cabe ao Ministério da Educação e da Cultura incentivar o hábito de leitura em família. Assim, por meio de propagandas televisivas que encorajem os pais a lerem para os filhos, principalmente nos fins de semana – haja vista que são os dias nos quais a grande maioria deles não trabalha -, um maior percentual de infantes terá uma formação intelectual de qualidade.