A importância da literacia familiar em debate no Brasil
Enviada em 22/12/2020
No período medieval europeu, as obras literárias e o conhecimento eram detidos por uma classe dominante, representada pela nobreza e clero, sendo as massas privadas do acesso de informações concretas e fatos históricos, facilitando sua manipulação. Analogamente a isso, na contemporaneidade brasileira, ocorre o fenômeno da desimportância atribuída a literacia familiar, atividade predominante em um meio mais elitizado da sociedade, tal como no medievo. Nesse sentido, muitas crianças tem o desenvolvimento intelectual e social prejudicados, tanto pela falta de consciência sobre a temática e ausência de incentivo da prática como pela hegemonia das novas linguagens digitais na atualidade.
Sob essa perspectiva, é fundamental abordar a importância da leitura no âmbito familiar para a construção do vocabulário e criatividade, inteligência, dos jovens, tendo em vista que esses critérios são inviabilizados pela falta de conhecimento sobre o assunto e pela carência de condições socioeconômicas. A partir disso, é válido citar o notável projeto ´´Conta pra Mim, do Ministério da Educação, o qual fornece 40 obras literárias, e ainda, cantigas e fábulas, via online, possibilitando o acesso à literacia, sobretudo às famílias em situação de fragilidade financeira. Cenário, então, oposto ao vivenciado por Lisiel, na obra ´´A Menina que Roubava Livros, cujo contexto remete à Alemanha nazista, que proibia leitura de certos títulos, tal como o Index Librorum Prohibitorum, na Idade Média.
Outrossim, é crucial destacar a necessidade da literacia familiar para o incentivo da criação de laços de afeto e carinho, entre pais e filhos, beneficiando as futuras habilidades sociais das crianças, já que a sobrepujância da tecnologia da modernidade tende a monopolizar os momentos de lazer, afetando esse processo. Consoante a isso, o filósofo Guy Debord postula a teoria sobre a ´´Sociedade do espetáculo vigente, evidenciando o apelo ao visual e às aparências em detrimento da razão, na modernidade. Assim, metaforiza-se as novas ferramentas digitais, ao tomarem o espaço dos tradicionais meios intelectuais (livros). Por conseguinte, observa-se um paralelo com obra ´´Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, por ilustrar, na ficção distópica, a predominância do entretenimento virtual e a desvalorização da leitura, com a representação das telas interativas e queima de livros.
É imperativo, portanto, a tomada de ações que viabilizem a literacia familiar em debate no Brasil, dada sua comprovada importância. Para tanto, cabe às ONGs, vinculadas à educação, criarem amplas campanhas conscientizadoras nas mídias, visando a informação e migração dos usuários desse campo para outras áreas. De forma que os pais e responsáveis possam tomar conhecimento de propostas, como o projeto ´´´Conta pra Mim``, e dos muitos benefícios da leitura no ambiente familiar, adotando a prática e rompendo com a milenar dominação do conhecimento pelas elites.