A importância da literacia familiar em debate no Brasil

Enviada em 23/12/2020

O livro “Pedagogia do Oprimido”, do filósofo Paulo Freire, discorre sobre o papel transformador da educação no que concerne à subversão da passividade política da população mais pobre e à efetivação da cidadania desses indivíduos. Nessa perspectiva, é indubitável que a literacia familiar - interação entre pais e filhos por meio da literatura - está atrelada ao papel da educação evidenciado pela obra supracitada, visto que essa prática pode funcionar como o primeiro contato das crianças brasileiras com os livros. Sob essa ótica, é primordial analisar a relação entre esse ensino e a formação da autonomia crítica dos jovens, bem como os desafios da ausência deste na aprendizagem escolar.

É imperioso salientar, a princípio, que o estímulo à literacia familiar tem papel importante na construção da criatividade, na formação da opinião e, sobretudo, no entendimento da futura participação política por parte dos jovens. Tal fenômeno vai ao encontro ao conceito de “Esclarecimento”, o qual foi proposto pelo filósofo Immanuel Kant e evidencia que os indivíduos devem desenvolver a sua autonomia crítica para atingirem o estado de maioridade. Nesse sentido, denota-se que essa educação familiar constitui um fator intrínseco ao combate a problemas como as notícias falsas, uma vez que os jovens esclarescidos terão condições, por exemplo, de discernir as informações relevantes e de exercer efetivamente a sua cidadania, assim como foi idealizado por Paulo Freire.

Em contrapartida, infere-se que essa prática ainda é mais comum entre as famílias de camadas sociais média e alta, o que corrobora a desigualdade educacional entre os jovens de classe mais abastada e os menos favorecidos economicamente. Essa questão pode ser relacionada ao conceito de “Capital Cultural” para o sociólogo Pierre Bourdieu, que pode ser definido como o acumulo de valores e de informações que permitem ao indivíduo aprender novos conteúdos facilmente. Por conseguinte, como a prática da literacia familiar é inexpressiva entre os jovens mais pobres, eles enfrentam maiores dificuldades na aprendizagem escolar, no ingresso às universidades, e, consequentemente, no mercado de trabalho.

Depreende-se, portanto, que, embora a literacia familiar tenha papel importante na formação da opinião dos jovens, ela ainda é inexpressiva na população mais pobre. Posto isso, com vistas a subverter esse paradigma de disparidade educacional, urge que o Ministério da Educação crie, por meio de subsídios governamentais, campanhas nas redes sociais que estimulem os pais a incentivarem seus filhos a manterem o habito da leitura para que estes adquiram um amplo capital cultural. Somente assim, supera-se-á o ciclo de pobreza e de vulnerabilidade social existente, concretizando o papel transformador da educação dos jovens evidenciado na obra “Pedagogia do Oprimido”.