A importância da literacia familiar em debate no Brasil

Enviada em 03/01/2021

O conto “Felicidade Clandestina”, de Clarice Lispector, retrata a história de uma jovem cujo maior sonho é a obtenção de um exemplar de um livro, associando a ideia da felicidade à posse do objeto. Nesse viés, embora na obra seja ressaltada a importância da leitura, tal valorização não ocorre na hodiernidade, o que pode ser observado pelos baixos índices de literacia familiar, situação acentuada pela falta de tempo de familiares, além da responsabilização única da escola. Faz-se necessário, portanto, debater os benefícios e desafios da questão, em prol do bem-estar coletivo.

Diante desse cenário, é importante ressaltar como o hábito de leitura no núcleo familiar influencia o desenvolvimento de jovens a curto e longo prazo, visto que possibilita melhora no desempenho acadêmico, aprimora habilidades sociointeracionais e auxilia no senso crítico e na noção de cidadania, por exemplo. Isso pode ser explicado pelas ideias do sociólogo Émile Durkheim, o qual dizia que a família faz parte da socialização primária de um indivíduo, sendo, portanto, a primeira instituição a apresentar valores a cada cidadão. Observa-se, assim, a importância da literacia se iniciar em casa, já que os valores absorvidos nesse núcleo acompanham o cidadão por toda a sua vida.

Por conseguinte, ainda convém lembrar, entretanto, os desafios a serem enfrentados pelo processo, como a pouca disponibilização de tempo pelos familiares. Nesse sentido, devido à necessidade de produtividade constante, não há espaço na rotina de parentes para incentivar a prática da leitura. Tendo isso em vista, o filósofo Byung-Chul Han explica que, no mundo contemporâneo, existe uma pressão pelo máximo desempenho em todas as áreas da vida, o que torna os cidadãos cada vez mais exaustos. Destarte, nota-se como falta motivação para introduzir a prática em residências. Outrossim, existe, muitas vezes, a ideia equivocada de que as escolas são as únicas responsáveis pela educação de jovens, o que faz com que familiares se isentem da responsabilidade, agravando o problema.

É perceptível, dessa forma, que a literacia familiar ainda apresenta obstáculos na atualidade. Por isso, é imprescindível que o Ministério da Educação promova a conscientização acerca da necessidade da leitura se iniciar em casa, por meio de palestras, nas quais profissionais qualificados expliquem a importância e os benefícios da prática a pais, a fim de incentivar os familiares. Ademais, é necessário que esse órgão, por meio das palestras, desconstrua a ideia de atribuição única da responsabilidade às escolas, com o intuito de promover a participação de todos os núcleos. Dessa maneira, será possível minimizar o problema, assegurando que a valorização descrita por Clarice possa fazer parte da realidade.