A importância da literacia familiar em debate no Brasil

Enviada em 03/01/2021

Segundo o educador e filósofo Paulo Freire, a leitura de mundo precede a leitura da palavra. No entanto, o que se observa na realidade contemporânea brasileira é o desprezo pela literacia familiar, sendo ela um pilar indispensável para a formação de crianças e jovens, uma vez que a leitura praticada em domicílio, com o auxílio dos familiares, abre espaço para aquisição de conhecimento de mundo e, desde cedo, um melhor desempenho acadêmico. Diante dessa perspectiva, faz-se imperiosa a análise dos fatores que dificultam essa prática.

Precipuamente, deve-se ressaltar a ausência de medidas governamentais para valorizar a leitura no âmbito familiar. Nesse sentido, é possível perceber que, no Brasil, a universalização do hábito da leitura ainda é uma utopia, visto que as pessoas que vivem em condições de vulnerabilidade socioeconômica são, muitas vezes, negligenciadas pelo Estado e perdem o acesso à materiais pedagógicos que estimulam a leitura, além da ausência dos familiares que resistem à uma carga horária de trabalho pesada. Dessa forma, o que provém desse descaso com essa parcela da população é um crescimento contínuo de analfabetos funcionais e pouco qualificados para o mercado de trabalho. Essa conjuntura, segundo as ideias do filósofo contratualista John Locke, configura-se como uma violação do “contrato social”, já que o Estado não cumpre sua função de garantir que os cidadãos desfrutem de direitos indispensáveis, como a educação, o que infelizmente é evidente no país.

Outrossim, é fundamental apontar a falta de interesse das famílias brasileiras sobre a importância das práticas de literacia como impulsionador do problema. Segundo o secretário de alfabetização Carlos Nadalim,  os pais são os primeiros professores dos filhos, uma vez que as crianças aprendem a falar a língua no seio familiar. Diante disso, é evidente que o descaso familiar no hábito de leitura das crianças impossibilita o desenvolvimento cognitivo, a construção de um vocabulário avançado, de senso crítico e de uma visão de mundo progressista. Por conseguinte, ao chegar na fase adulta, esses indivíduos ficam à margem do mercado de trabalho por não estarem capacitados e proficientes conforme requisitado pelas empresas. Logo, é inadmissível que esse cenário continue a perdurar.

Cabe, então, ao Ministério da Educação, por intermédio de programas de inclusão educacional, ampliar o financiamento para a aquisição e produção de materiais pedagógicos e para a construção de bibliotecas, com foco nas regiões rurais e periféricas, a fim de democratizar o acesso à livros didáticos. Ademais, em consonância com as universidades e as mídias, por meio de palestras e campanhas, informar aos cidadãos a importância da literacia familiar e sua contribuição para a aprendizagem ao longo da vida. Assim, tornar-se-á possível a efetivação dos elementos elencados na teoria freireana.