A importância da literacia familiar em debate no Brasil
Enviada em 12/01/2021
Na área da Psicanálise, Sigmund Freud, descreveu a infância como um jardim em desenvolvimento, já que nessa fase é quando metaforicamente se plantariam sementes de acordo com as primeiras experiências vividas para que sejam devidamente colhidas no futuro. Prioritariamente, para que essa plantação floresça, é necessário a participação de um adulto dedicando cuidados para benefícios a lon-
go prazo. Seguindo essa comparação subjetiva, é possível estabelecer uma analogia da importância da
prática de literacia familiar no Brasil, já que a ideia de leitura e contação de histórias entre adultos e crianças junto com a harmonia do lar influenciam positivamente na formação cognitiva dos futuros cida-
dãos. Entretanto, para naturalizar essa dinâmica em família tão necessária, é essencial analisar as questões sociais e técnicas que dificultam a real implantação desse modelo.
Em primeiro lugar, um dos principais obstáculos presentes consiste na disparidade socioeconômica que está intrinsecamente relacionada aos diferentes graus de escolaridade -em que o analfabetismo ainda é uma realidade-; e à desigualdade de acesso à internet. É cruel exigir que responsáveis por uma família de oito filhos do sertão nordestino tenha a mesma facilidade em aderir hábitos de leitura em casa como uma família com duas crianças com direito a babá de um bairro nobre da zona sul paulista.
Sob esse viés, o sociólogo Émile Durkheim explicou em sua teoria do “Fato Social” o quanto a realidade
a qual os indivíduos estão submetidos influencia no comportamento apresentado em suas relações sociais. Logo, não basta o governo implementar o programa “Conta pra Mim” e criar aplicativos de celular sem estabelecer condições equitativas para mudar a perspectiva e democratizar a prática.
Além disso, é preciso se atentar aos perigos de uma tranferência de responsabilidade por parte do Go-
verno Federal com a divulgação expressiva dessa dinâmica acontecendo de forma errônea. Pela ma-
neira como está sendo exposto o conceito de literacia, pode haver uma sobrecarga dos núcleos familia-
res que tentam adotar a prática, acreditando-se que a alfabetização no próprio domicílio pode substituir
o papel escolar, enquanto a realidade exige uma complementariedade. Nessa ótica, se torna necessário
explicações mais didáticas sobre como deve acontecer a abordagem familiar sem ferir limites pedagógicos.
Diante desse prisma, para superar as barreiras existentes, o MEC deve realizar concursos públicos promovendo a devida capacitação de profissionais ligados a educação que se disponibilizem a fazer visitas periódicas nas residências para ensinar as aplicabilidades da literacia familiar em diferentes con-
textos socioeconômicos. Assim, inicia-se um caminho para colher benefícios futuros, como prevê a me-
táfora do jardim freudiana.