A importância da literacia familiar em debate no Brasil

Enviada em 06/01/2021

Conforme afirma o filósofo prussiano Immanuel Kant, atingir a maioridade consiste em ser capaz de pensar por si próprio e alcançar a autonomia. À vista disso, a educação possui papel fundamental na formação de um ser humano independente e na superação de vulnerabilidades socioeconômicas, e não deve se limitar apenas ao âmbito escolar. No entanto, apesar de ser de extrema importância, a literacia familiar ainda não está de fato presente na realidade brasileira, visto que nem mesmo os pais e responsáveis possuem o hábito e a habilidade da leitura, além de geralmente acreditarem que esse papel cabe apenas aos professores.

Nesse aspecto, de acordo com a psicoterapeuta e professora da Universidade de São Paulo, Cecília Prado, o contato com a leitura desde a infância possibilita que a criança desenvolva características mais técnicas e complexas de raciocínio, possua maior facilidade de comunicação e interação social, otimize o senso crítico, a criatividade e seja capaz de extrapolar as barreiras do mundo físico. Além disso, o indivíduo possui chances muito maiores de se inserir no mercado de trabalho, laborar em condições dignas e romper com o ciclo da pobreza.

A formação dos leitores no país, no entanto, não conta com pleno apoio dos núcleos familiares, dado que, de acordo com uma pesquisa realizada pelo Instituto Pró-Livro, o brasileiro lê uma média preocupante de apenas dois livros anualmente. Assim, a maior parte das crianças não têm contato com obras literárias durante essa fase inicial da vida, visto que nem mesmo os pais e responsáveis têm esse hábito para promoverem o incentivo. Adicionalmente, outro desafio que deve ser levado em consideração é a ideia errônea que cabe apenas aos professores a função de educar – resultado de uma estrutura educacional extremamente tradicional e conteudista, chamada de educação bancária pelo educador Paulo Freire, que se dá apenas pelo acumulo de informações, muitas vezes pouco aplicáveis ao cotidiano.

Portanto, com vistas a promover a formação de leitores entre os adultos e idosos brasileiros, para que estes possam contribuir com a educação das novas gerações, é necessário que o Ministério da Educação, em parceria com ONGs voltadas para a valorização da alfabetização, realize oficinas de capacitação gratuitas. Essas atividades devem ser conduzidas especificamente por professores da área de linguagem e de humanidades, haja vista que a leitura não é apenas uma forma de decodificação, e sim uma nova maneira de se enxergar o mundo. Dessa forma, essa capacitação deve consistir em informar a importância da literacia familiar, ensinar métodos eficazes e desconstruir a visão de que apenas a escola e os docentes são responsáveis pela educação infantil.