A importância da literacia familiar em debate no Brasil

Enviada em 10/04/2021

Segundo as análises sociológicas do estadunidense Talcott Parsons, a Família, configurada como primeira instituição e ponte inicial entre o indivíduo e o meio em que ele está inscrito, é e foi, em todos os contextos históricos, a principal formadora de personalidades humanas. A partir dessa visão, torna-se interessante averiguar o papel familiar na formação educacional de leitura e escrita, a literacia, dos cidadãos na contemporaneidade, vista a relevância desse setor na construção da cidadania. Nesse sentido, destacadamente no Brasil, é mister enfatizar a importância da família na alfabetização de seus descendentes, bem como entender os entraves que dificultam a sucessão desse processo no país.

Com efeito, é inadmissível acreditar, de início, que o processo de alfabetização é responsabilidade apenas da escola. Isso porque, modernamente, ofícios legais provam o contrário: de acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente, o ato de educar deve estar presente em todas as instâncias da sociedade, desde a primeira instituição, a família, até os órgãos de educação formal, as escolas. Por isso, a literacia familiar se revela fundamental no desdobramento do processo alfabetizador, já que, por se tratar de um espaço de vínculo afetivo, a aprendizagem se direciona, também, à construção da personalidade do indivíduo e da sua visão de mundo, conforme analisado por Parsons. Afinal, a terceirização do letramento apenas a outras instituições educacionais equivale à interdição de um processo social necessário para que cada sujeito possa agir e interagir em múltiplos contextos sociais.

Por outro lado, não é justo deixar de compreender os diversos panoramas sociais que compõem o Brasil: conquanto as taxas de analfabetismo tenham diminuído, segundo o IBGE, ainda existem, hoje, no país, mais de 11 milhões de analfabetos, o que corresponde a 144 Maracanãs lotados. Isso posto, seria, sem dúvidas, incoerente depositar, na literacia familiar, grandes expectativas, ao se considerar a realidade brasileira: enquanto houver muitos núcleos familiares sem o acesso ao letramento, é ilógico demandar que a leitura e a escrita sejam construídas em domicílio. Por fim, essa questão pode ainda ser vinculada ao retrato “Operários” pintado, em 1933, pela modernista Tarsila do Amaral para denunciar, por meio de 51 rostos sobrepostos, a exploração do trabalho pela insdústria, que impediu o letramento de milhões de brasileiros, no século XX, e a herança desse bem para outros milhões no século XXI.

Portanto, é necessário ir à raiz do problema. Dessarte, o Poder Executivo Municipal, representado pela Secretaria da Educação, deve estimular, em consonância, a literacia familiar e o letramento de núcleos com parentes analfabetos. Isso pode ser feito por meio de um programa que direcione verbas à ocorrência de cursos pedagógicos de alfabetização, em escolas e espaços públicos dos municípios brasileiros, e de campanhas televisivas que evidenciem a literacia familiar, a fim de sua sucessão.