A importância da literacia familiar em debate no Brasil

Enviada em 27/04/2021

De acordo com o artigo 205 da Constituição de 1988, a educação é direito de todos e dever do Estado e da família. Tendo em vista essa responsabilidade compartilhada, o papel social da família na literacia familiar, ou seja, a participação ativa no processo educacional dos filhos, mostra-se imprescindível. Diversos são os benefícios proporcionados por tal prática, a exemplo do desenvolvimento de diversas habilidades a curto e a longo prazo. Entretanto, a literacia familiar enfrenta diversos desafios, como o acesso dificultado aos livros e a atribuição única à escola.

Vale ressaltar, em primeiro lugar, que o acesso dos pais e dos responsáveis aos livros e a outras ferramentas educativas é dificultado por questões de ordem econômica, como o preço custoso. A esse respeito, durante o período colonial no Brasil, no século XVI, apenas a aristocracia - organização composta pelos nobres - tinha acesso à leitura e à alfabetização de qualidade. No Brasil contemporâneo, a leitura continua restrita às classes com melhores condições econômicas, marginalizando a população pobre desse hábito tão benéfico. Dessa forma, percebe-se que o hábito de leitura é pouco acessível em termos financeiros , prejudicando, assim, a participação ativa e eficiente dos pais na formação de novos leitores no núcleo familiar.

Ademais, a atribuição da literacia exclusivamente à escola é outro problema a ser enfrentado, uma vez que os responsáveis acreditam que tal função restringe-se aos professores e ao ambiente escolar. Isso é fruto de uma tradição escolar excessivamente tradicional que considera que a escola é o único espaço educativo, o que é abordado em Pedagogia da Autonomia de Paulo Freire como uma educação bancária, a qual se dá meramente pelo acúmulo de conhecimento na mente do aluno. Essa perspectiva limitada é, consequentemente, absorvida pelo restante da sociedade, dinviabilizando ainda mais a implementação efetiva da literacia familiar no Brasil.

Portanto, urge que o Ministério da Educação, juntamente com empresas do setor literário, promovam feiras do livro com preços acessíveis mediante uma parceria público privada com vistas a ampliar o acesso aos livros e às ferramentas necessárias para o desenvolvimento das crianças. Concomitantemente, o mesmo Ministério deve promover oficinas de leitura para os cuidadores a fim de capacitá-los para a formação de leitores no ambiente familiar, além de desconstruir a ideia de que essa habilidade é restrita ao âmbito escolar, por meio de discussões semanais ministradas especificamente por professores das áreas de linguagens e humanidades. Feito isso, será possível implantar a literacia familiar no Brasil e garantir as funções sociais tanto do Estado quanto da família, conforme previsto no artigo 205 da Magna Carta Brasileira.