A importância da literacia familiar em debate no Brasil
Enviada em 15/09/2021
Na obra literária “A menina que roubava livros”, de autoria de Markus Zusak, Liesel, criança pobre residente da Alemanha nazista, é instruída e guiada pelo pai adotivo a conquistar a plena alfabetização, privilégio antes inconcebível devido às condições socioeconômicas, fato que fez a alemã adquirir uma visão ampla e autêntica do mundo em que vive. No entanto, a despeito da capacidade transformadora do estímulo à leitura na infância, constata-se a negligência com que é tratado o tópico no país e as consequências disso na estrutura basilar da sociedade, o que evidencia a importância da literacia familiar no Brasil. Por isso, graças à inibição do desenvolvimento intelectivo e interpessoal e, consequentemente, à formação de indivíduos padronizados, a problemática assola a coletividade.
Em primeiro plano, a limitação do alcance do poder transformador da literatura corrobora a conjectura. Nesse sentido, no livro “Diário de Anne Frank”, é relatado como o hábito da leitura compartilhado pela família fomenta o constante aprimoramento pessoal da escritora judia, fato que a fez, mesmo em meio às condições de perseguição, ter a capacidade de apreciar e defender o espírito de humanidade da coletividade. Dessa forma, a partir do momento em que a literacia amparada na conjuntura familiar estimula o desenvolvimento social e cognitivo dos indivíduos, a negligência com que é tratado o tema, ao corromper a parcela jovem, faz com que o alicerce basal da sociedade brasileira seja comprometido, o que torna a estrutura da coletividade frágil e instável. Logo, devido ao desprestígio dado ao poder da literacia no ambiente da família no país, o corpo social é danificado.
Por conseguinte, ao serem formados indivíduos padronizados, a homogeneização da sociedade agrava o cenário. Nesse viés, o “Mito da Caverna”, obra redigida pelo filósofo grego Platão, trata dos indivíduos que, afastados do conhecimento autêntico, vivem em uma realidade ilusória, construída nos moldes de quem detém a verdade. Desse modo, no instante em que há o distanciamento da juventude da literacia familiar, são formulados indivíduos impensantes, com frequência, à beira da irracionalidade, o que torna o corpo social significativamente mais manipulável e o faz tomar rumos, de maneira implícita, guiados pelo alto estrato da coletividade. Assim, são necessárias medidas interventivas.
Portanto, depreende-se que a questão da negligência da literacia familiar em debate é um desafio e carece de soluções. Sendo assim, o Estado brasileiro, ao lançar mão dos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística em relação ao índice de letramento no país, deve, por meio da criação de saraus literários populares destinados às famílias, estimular o hábito da literatura compartilhada entre pais e filhos, a fim de, a partir do investimento na juventude, tendo em vista o futuro, solidificar a estrutura basilar da sociedade e, assim, tornar comum o hábito de literacia familiar, como o de Liesel.