A importância da literacia familiar em debate no Brasil
Enviada em 13/10/2021
Em “Ensaio sobre a Cegueira”, o escritor português José Saramago desenvolve uma narrativa trágica centrada na crítica ao estado de irreflexão da sociedade pós-moderna, por intermédio de uma epifânica cegueira que acomete os indivíduos do meio social. Ao considerar tal sintoma para fundamentar a discussão sobre a literacia familiar em debate no Brasil, vê-se que o corpo social hodierno desenvolveu uma cegueira moral ao não refletir sobre a importância dessa prática para o desenvolvimento na primeira infância. Nesse sentido, cabe analisar de que forma a desigualdade social é um entrave, bem como esclarecer a falta de consciência sobre a temática no país.
A priori, é preciso reconhecer que, devido a realidade de grande desigualdade no cenário social brasileiro, os instrumentos necessários para uma boa literacia familiar não estão acessíveis á todos. Nessa perspectiva, atesta-se a percepção de Saramago, na medida em que a sociedade tornou-se cega ao não questionar a influência da vulnerabilidade social no desenvolvimento da criança. Há, evidentemente, a partir disso, o pouco acesso dessa população aos recursos públicos disponíveis como livros digitais, posto a necessidade de aparelhos eletrônicos e de internet. Dessa forma, há prejuízos para a consolidação e a valorização desse hábito, principalmente em regiões carentes.
Outrossim, é válido ressaltar que, apesar da divulgação de programas como o “Conta pra mim”, não há grande conscientização popular acerca da necessidade da literacia familiar para a formação dos indivíduos. Sob essa ótica, ganha voz a percepção do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, na obra “O mal estar da pós-modernidade”, ao discorrer sobre as chamadas “instituições zumbis”, organismos sociais que, embora importantes, perderam, com o tempo, a forma. À luz dessa ideia, é notório que o Estado tornou-se uma instituição zumbi, visto que não investiu de forma suficiente na conscientização das famílias acerca da importância dessa prática para a vida social e educacional dos filhos, principalmente no que tange a criatividade. Logo, vê-se que essa ação é pouco exercida no Brasil.
Assim, diante dos argumentos supracitados, é preciso concentrar esforços em solucionar esse impasse. Inicialmente, cabe ao Ministério da Educação, órgão responsável pela formação dos cidadãos, a tarefa de promover acessibilidade aos instrumentos diversos como livros, por meio da construção de bibliotecas públicas que contenham tais acervos, com o objetivo de minimizar os danos da vulnerabilidade social. De modo complementar, o mesmo Ministério deve ampliar o programa “Conta pra mim”, a partir de investimentos em propagandas nos veículos diversos como TV e redes sociais, com vistas a conscientizar os familiares. Espera-se que, com ações desse tipo, a literacia familiar seja valorizada, de modo a findar a cegueira da razão.