A importância da literacia familiar em debate no Brasil

Enviada em 08/11/2021

Na obra “Utopia, do escritor inglês Thomas More, é retratada uma sociedade perfeita, na qual o corpo social padroniza-se pela ausência de problemas e conflitos. No entanto, a realidade brasileira contemporânea diverge da visão do autor, uma vez que a desigualdade cognitiva nos primeiros anos de educação continua a ocorrer. Esse cenário antagônico pode ser revertido pela aplicação da literacia familiar – atos relacionadas a leitura e escrita cultivados entre pais, responsáveis e filhos – importante por estimular à criatividade, abstração e vocabulário nas crianças. Todavia, essa opção encontra entraves em razão de alterações na dinâmica familiar e incúria estatal, que necessitam sua análise para o restabelecimento da harmonia social.

A princípio, faz-se mister notar as modificações nas interações sociais como um obstáculo a ser vencido na consolidação da prática com infantes em comento. A esse respeito, ao longo do século XX o país urbanizou-se e mais mulheres entraram no mercado de trabalho, pois elas compõem a renda de mais de 60% dos lares, segundo o IBGE. Em face disso, a criação dos filhos deixou de ser exclusividade das famílias, concorrendo na tarefa creches, escolas ou empregados. Entretanto, nos extratos mais baixos, na qual esses aparelhos não são universais, especialmente públicos, não raro, cuidadores desqualificados são incumbidos disso, como vizinhos ou menores de idade. Assim, exatamente entre os vulneráveis, que mais se beneficiariam da novidade, menos capacidade de usufruto existe.

Outrossim, é igualmente relevante apontar o papel do descaso do governo com a educação como mais um empecilho a salutar costume da leitura com as crianças. Nesse sentido, pela teoria contratualista, os indivíduos abrem mão de sua plena liberdade, para que o Estado, em nome da coletividade promova o bem comum. Todavia, no mundo real, o contrário ocorre, consistente com os elevados número – pesquisa Ibope Inteligência indica quase 30% dos brasileiros – de analfabetos funcionais – aqueles que são incapazes de compreender uma informação escrita e refletir sobre ela. Logo, não é crível que familiares nessa condição, após a jornada de trabalho, sejam capazes do hábito em escrutínio, exigindo-se uma solução estatal, em linha com seu papel.

Urge, portanto, diante do exposto, que medidas sejam tomadas para remoção dessas dificuldades. Dessarte, o Ministério da Educação – responsável pelas políticas públicas do setor – deve propor projeto de lei com a finalidade de universalizar o acesso à pré-escola, dotar de recursos para capacitação de profissionais na aplicação da literacia e instituir projeto educativo de requalificação de jovens e adultos na leitura. Tal iniciativa seria implementada por meio audiências públicas, que teria, também, o condão de divulgar essa empreitada. Com isso a utopia de More seria alcançada