A importância da representatividade na publicidade
Enviada em 23/06/2021
Em seu poema “No meio do caminho”, Carlos Drummond de Andrade, ímpar poeta brasileiro, retrata, de modo figurado, os obstáculos que o ser humano enfrenta em sua jornada. De maneira análoga à obra de Drummond, pode-se associar tais obstáculos à realidade tupiniquim, em que a falta de representatividade na publicidade surge como um complexo desafio a ser combatido no Brasil. Logo, compreender a indiligência estatal e a falta de afinco coletivo é uma forma de restringir a história formulada pelo escritor aos papéis.
Diante desse cenário, cabe lembrar do pensador contratualista Thomas Hobbes, o qual, em seu livro “O Leviatã”, defende a obrigação do Estado em proporcionar meios que auxiliem o progresso do organismo social. Entretanto, a máxima do filósofo está em dissonância com o cenário vigente, uma vez que o poder público não direciona um olhar a ações que poderiam resolver a carência de grupos sociais marginalizados nas propagandas, tal como cotas de emprego e incentivos fiscais à contratação dos indivíduos sobreditos. Logo, enquanto a máquina pública for negligente, poder-se-á observar a persistência da exclusão no âmbito do “marketing”.
Além disso, é importante assinalar que a displicência social é, também, um fator determinante na continuação da triste situação em que o meio das propagandas se insere. Sobre esse prisma, o filósofo pós-estruturalista Jacques Derrida, a partir de análises sociais, conclui que todo pensamento errôneo já estabelecido em uma comunidade — tal qual o preconceito contra a inclusão de minorias em anúncios — é passível de transgressão, bastando, para isso, que os agentes sociais estejam empenhados no combate a essa ideia equivocada. Isso posto, demonstra-se que há possibilidade de reconfiguração no pensamento coletivo, o que determina a viabilidade e a necessidade da ação ativa da sociedade brasileira na superação da problemática.
A partir do que foi exposto, medidas devem ser tomadas no enfrentamento do inaceitável paradigma abordado. Para tanto, o governo federal, por meio de aportes financeiros direcionados ao Ministério da Educação — órgão responsável pelas ações educativas do país —, deve promover eventos escolares que promovam a conscientização das crianças e adolescentes, com palestras e debates, acerca da importância da representatividade na publicidade. Tendo em conta o imenso poder transformador de projetos socioculturais, espera-se que a comunidade escolar e a sociedade no geral, consequentemente, compreendam a importância da oposição ao tão nocivo panorama que a exclusão de conjuntos minoritários das propagandas configura. Se assim for feito, o poema de Drummond deixará de retratar a realidade do país no que tange ao percalço tratado.