A importância de extinguir o desperdício de alimentos no Brasil

Enviada em 21/11/2020

O poema “No Meio do Caminho", cunhado por Carlos Drummond, retrata as intempéries que surgem na jornada do eu lírico, as quais, metaforizadas como pedras, obstruem o percurso da sua vida. Não obstante, é possível afirmar que a poesia de Drummond possui um caráter atemporal, o que permite sua expansão para o contexto atual: No meio do caminho para a importância de extinguir o desperdício de alimentos no Brasil, existem pedras. Diante dessa perspectiva, é necessário assumir a postura de um geólogo, analisando as medidas que precisam ser aplicadas para que as rochas, ora da falta de democratização da comida, ora de uma cultura familiar inconsciente, sejam levadas ao intemperismo.

Primeiramente, a lacuna na acessibilidade à alimentação, por parte da camada social marginalizada, se torna um fator de importância para abolir a prática de desperdício. Segundo Pierre Bourdieu, o que foi criado para ser instrumento de democracia não deve ser convertido em mecanismo de opressão. Tal preceito, análogo ao direito à alimentação previsto no artigo sexto da Constituição Federal de 1988, evidencia a necessidade de democratização da comida, que se encontra no limiar inconstitucional por causa da dificuldade que as famílias de baixa renda possuem em adquirir alimentos para seus lares, uma vez que as pesquisas do IBGE apontam que metade dos brasileiros sobrevivem com apenas 438 reais mensais. Logo, é mister que o excedente alimentício seja direcionado para essa classe social.

Secundariamente, ao analisar o desperdício de alimentos por um prisma cultural, nota-se forte influência do comportamento parental na questão. De acordo com o sociólogo Talcott Parsons, a família é uma máquina produtora de personalidades humanas. Sob esse viés, é possível afirmar que o ser humano é introduzido às normas através dos pais, que fazem o papel de socialização primária ao induzir sua cultura familiar - hábitos e costumes - no indivíduo. Nesse sentido, na ausência de um hábito consciente no que tange à preservação de alimentos, a família se torna uma máquina que reproduz esse mesmo “erro” na configuração das próximas gerações, tornando imprescindível, desse modo, a dissolução dessa conjuntura.

Portanto, a transformação desse quadro se dá de forma clara: É preciso que ONG’s façam a colheita urbana, ou seja, coleta de alimentos excedentes de produção e comercialização, tornando a distribui-los para programas e instituições de caridade. Destarte, irá ocorrer a democratização da alimentação para a classe marginalizada. Ademais, o Ministério Público, em parceria com os agentes midiáticos, deve fazer campanhas nas redes sociais com nutricionistas e economistas, alertando às famílias sobre a importância de evitar o desperdício, para que se tornem conscientes sobre as suas ações e transmitam esses valores adiante. Somente assim, o caminho tornar-se-á livre de quaisquer pedras.