A importância do ensino profissionalizante

Enviada em 29/10/2021

Na obra “Utopia”, do escritor inglês Thomas More, é retratada uma sociedade perfeita, na qual o corpo social padroniza-se pela ausência de conflitos e problemas. No entanto, o que se observa na realidade contemporânea brasileira é o oposto do que o autor prega, uma vez que o ensino profissionalizante não recebe o devido apoio, em face da importância que possui no incremento da produtividade do fator trabalho, primordial na melhoria da competividade econômica nacional. Esse cenário antagônico é fruto tanto da incúria estatal, quanto da desvalorização do labor manual. Diante disso, torna-se fundamental a discussão desses aspectos, a fim de assegurar o pleno funcionamento do corpo social.

A princípio, é imperioso anotar a indiligência governamental como fator que contribui para a pouca inserção do ensino técnico no país. Nesse viés, pela teoria contratualista, os indivíduos abrem mão de sua plena liberdade, submetendo-se às leis do Estado, para que esse, em nome da coletividade, promova o bem comum. Todavia, a política – para Aristóteles, a condutora daquele ente estatal – descuida da população em favor de medidas de austeridade fiscal. Em consequência, deprime-se os investimentos em educação, ainda mais necessários diante da pouca oferta de vagas para a formação técnica, pois apenas 8% dos concluintes do ensino médio são egressos daquela modalidade – dados OCDE. Assim, não há como conferir prioridade nesse campo, à vista da absoluta escassez de vagas.

Outrossim, é igualmente relevante apontar o papel do desprestígio do trabalho envolvendo esforço físico na baixa aderência da formação profissionalizante. Nessa seara, o historiador Moses Finley identifica no escravismo a capacidade de marcar profundamente o corpo social em variadas áreas. Com efeito, esse instituto forjou na sociedade a visão, não só de uma elite que não necessitava trabalhar, dado que os cativos se incumbiam disso, que valorizava o ócio ou profissões mais intelectuais – politica, direito, medicina –, mas também que a labuta física era tarefa de escravos ou do lumpesinato. Em função disso, almeja-se a graduação acadêmica como único caminho para a obtenção de prestígio e ascensão social e renega-se a possibilidade de uma educação voltada ao trabalho.

Faz-se mister, portanto, diante do exposto, que seja conferida a devida importância a esse instrumento qualificador da mão de obra nacional. Dessarte, o Ministério da Educação – responsável pelas políticas do setor – deve propor programa multidisciplinar de reforma do ensino médio, com a finalidade de dotar mais escolas com a educação técnica e ampliar gradativamente a participação dessa modalidade entre os graduados. Tal iniciativa seria realizada por intermédio de audiências públicas, que teriam ainda o condão de ampliar o debate sobre essa formação e aumentar o seu engajamento. Desse modo, a utopia de More, finalmente se concretizaria.