A importância dos cuidados paliativos para indivíduos com doenças graves

Enviada em 07/10/2021

Em “A montanha mágica”, livro de Thomas Mann, são retratados enfermos em um sanatório para tuber-culosos na Suíça, muitos dos quais recebem sentenças de morte, mas mantêm um estilo de vida admi-rável: recebem os cuidados apropriados e vivem autonomamente, apesar das consultas médicas os lembrarem dos infortúnios. A partir desse retrato do século XX, podemos inferir que doenças terminais não precisam ser sinônimo de sofrimento para o vulnerável nem para a família dele, mas este pode ser amenizado com cuidados paliativos (CPs). Embora, no Brasil, a morte seja um tabu angustiante, urge o debate de propostas para amenizar as doenças graves e potencialmente fatais dos entes queridos.

Nesse sentido, os cuidados paliativos proporcionam conforto prolongado frente a uma dor constante para enfermos terminais e família. Esta abordagem pretende garantir dignidade, autonomia e alívio para um cenário trágico e inexorável. Ademais, comumente, as pessoas não estão preparadas para “aquies-cer” com a morte “programada” de um ser amado, todavia, sem a assistência adequada, a qualidade de vida do indivíduo doente pode ser piorada, como é retratado no filme “Como eu era antes de você”, em que Louisa Clarke nega apoio a Will Trainor, tetraplégico, que rejeita uma vida tão inata e toma uma deci-são abominável, do ponto de vista dela. Sendo assim, como retratado na ficção, a liberdade de escolha do enfermo muitas vezes é ignorada por um egoísmo inconsciente dos familiares, que querem prolongar a vida do ente ao máximo — apesar de prolongar, na mesma medida, o martírio de todos.

Outrossim, José Saramago captou a essência do tabu em torno da morte, do ponto de vista do Ocidete, em “As intermitências da morte”, onde ele imaginou um estado de bem-estar completo, com a suspen-são das mortes em um país, o que logo se tornou um pesadelo coletivo, pois muitos familiares saudá-veis acompanhavam a agrura dos doentes, viam-se confrontados pelo dilema de, literalmente, levar ou não os enfermos para a morte — a reflexão faz referência à dificuldade humana de enfrentar a morte moral e dignamente, mais fácil é optar por manter as aparências. Assim, como na ficção, outras institui-ções importantes, como universidades de medicina ou de psicologia, resistem a se aprofundar no tema, por ser complexo e delicado, de modo que os profissionais ficam destreinados para oferecer cuidados em meio a aflições alheias motivadas por doenças fatais, e acabam por realizar um trabalho medíocre.

Portanto, a partir disso, compete ao governo, em parceria com a mídia, remodelar a forma como os cui-dados paliativos e a morte são abordados na sociedade, por meio de cartilhas em escolas e cargas horárias obrigatórias sobre as temáticas em universidades, com o objetivo de provocar mudanças colossais a longo prazo na maneira em que esses assuntos são abordados, e, por intermédio de campanhas, incentivar a busca por CPs, a fim de garantir o respeito e a autonomia propostos por Mann.