A importância dos quilombos no Brasil hoje

Enviada em 12/09/2019

Pode-se considerar, por pressupostos históricos formais, que a busca por uma identidade nacional teve início com a independência do Brasil em 1822. As mulheres e homens negros, de origem africana, apesar de serem parte indissociável do que se convencionou chamar cidadão brasileiro, têm, ainda hoje, uma participação marginal na construção da(s) brasilidade(s). O entendimento do que foram e o que são atualmente os quilombos garantem o devido reconhecimento a esses povos, seus costumes, rituais e linguagens nesse cenário de contradição e exclusão sociais.

O sociólogo Gilberto Freyre, ao escrever Casa-Grande e Senzala, sua obra mais destacada, sustentou a noção de que para conhecer verdadeiramente o Brasil devemos inevitavelmente nos atentar para o que foi o processo de escravização do indivíduo negro africano e seu uso como mão de obra durante todo o período colonial e a sua condição no pós-abolição. Nessa perspectiva, os quilombos remanescentes fornecem, com as devidas ressalvas para não se chegar a conclusões anacrônicas, um valioso objeto de estudo para a melhor compreensão do que os povos negros representam para a identidade brasileira.

Nota-se, contudo, uma sobrevalorização da cultura negra africana como representativa no que é ser brasileiro. A base curricular de ensino fundamental ou médio é carente de uma análise mais aprofundada e consciente do papel dos negros na história do país. Não é incomum, por parte de estudantes do ensino básico, a imaginação de um quilombo como sendo um lugar de desordem, miséria e de falta de civilidade. Esse estereótipo é perpetuado em detrimento das histórias de resistência, solidariedade e humanidade. Com isso, não há estimulo em se questionar, por exemplo, que a abolição da escravidão foi mais uma conquista dos negros cativos que resistiam (muitos deles organizados nos quilombos espalhados pelo território) do que uma imposição hierarquizada “de cima para baixo” assinada pela Princesa Isabel.

A preservação e reconhecimento dos quilombos remanescentes são, portanto, uma questão de justiça e comprometimento com a verdadeira identidade nacional. Visando uma maior valorização do indivíduo negro dentro da(s) brasilidade(s) construídas ao longo do tempo, cabe ao poder público, na figura do Mistério da Educação, a elaboração de novas diretrizes escolares, em que os povos negros africanos tenham seus papéis revisados, passando de coadjuvantes à protagonistas de sua própria história de emancipação. Pra tanto, considera-se fundamental, com o engajamento das escolas públicas e privadas, o  planejamento de excursões interdisciplinares aos próprios quilombos remanescentes visando um aprendizado muito mais rico, didático e humano da realidade.