A importância dos quilombos no Brasil hoje
Enviada em 21/09/2019
Ao retratar a vida da cantora negra de jazz Nina Simone, o documentário da Netflix “What Happened, Miss Simone?” destaca a existência de elementos sociais - polícia, educação, segurança, padrão estético - que, ao privilegiarem historicamente um estrato racial, minimizam a possibilidade de ascensão negra. Essa obra, apesar de referir-se à uma pessoa em particular, possui forte semelhança com a realidade brasileira, cujo histórico triste e escravocrata não foi suficiente para desfazer a herança de opressão sobre o negro. Essa condição é evidenciada pela permanente negligência Estatal com a preservação dos quilombos - maior símbolo de resistência -, o que corrobora a estereotipação social.
Sob tal ótica, o Estado, como organismo detentor de poder legal, é responsável por assegurar aos indivíduos a preservação de seus direitos e de sua identidade. No entanto, apesar dos avanços sociais ocorridos nas últimas décadas, parece haver uma negligência histórica com os negros, sobretudo no que tange à preservação de elementos identitários, como os quilombos. Esses esconderijos no meio da mata eram o refúgio de negros escravos que conseguiam fugir das senzalas no século XVI. A simbologia de força e resistência que essas fortificações possuem hoje exprime não só a luta dessa minoria enquanto povo e raça, mas também sua participação na diversidade cultural.
Por conseguinte, a ausência de medidas preventivas em relação aos quilombos espelha na população o descaso com a cultura negra e acaba por corroborar os estigmas já existentes. Segundo o sociólogo Pierre Bourdieu, a sociedade incorpora, naturaliza e reproduz os padrões comportamentais que são impostos a ela. Sendo assim, a estereotipação é uma consequência, também, do desconhecimento quanto aos elementos culturais - valores, crenças, costumes, entraves - da população negra, seja por ausência de interesse em buscar informações, seja por historicamente não haver estímulos para a desconstrução de pré conceitos. Essa conjuntura inviabiliza a convivência respeitosa dos indivíduos e incita ataques físicos e materiais como forma de desqualificar a cultura subjugada.
Infere-se, portanto, que medidas são necessárias para romper verdadeiramente com a histórica opressão aos negros. Logo, cabe ao Ministério da Mulher, Família e dos Direitos Humanos propor uma lei ao Legislativo que oficialize a preservação dos quilombos, transformando-os em patrimônios históricos e culturais, a fim de valorizar os aspectos identitários da população negra. Ademais, para que haja uma eficaz desconstrução de estereótipos reproduzidos, cabe ao Ministério da Educação a execução de atividades e debates orientados em sala que estimulem a curiosidade de crianças e jovens em pesquisar e obter informações sobre a história do Brasil enquanto um país plural. Assim, evitar-se-á que novas “Ninas Simones” brasileiras existam.