A internação involuntária de dependentes químicos no Brasil.
Enviada em 11/09/2019
Bicho de sete cabeças, filme estrelado por Rodrigo Santoro, faz uma releitura dos relatos de Austregésilo Carrano Bueno que foi internado em um manicômio após seu pai ter encontrado um cigarro de maconha em seu casaco. No longa-metragem, apresentam-se as condições de extremo mal trato, falta de empatia médica e o distanciamento entre pais e filhos. No que tange a internação involuntária de dependentes químicos no Brasil, existe dois pontos a serem debatidos: o primeiro corresponde à desumanização do usuário, no qual sua vontade é menosprezada em uma justificativa de incapacidade cognitiva; a segunda está relacionada ao aparato precário de tratamento de grupos de dependentes químicos no Brasil.
O abuso do uso de drogas pode gerar uma série de problemas neurológicos e psiquiátricos, tal como a instabilidade mental do usuário, no entanto, uma medida como a internação deve perpassar por um diálogo geral. Nesse viés, o dependente químico ao ser desconsiderado em um diálogo é colocado em posição de dominação, o filósofo frankfurtiano Habermas coloca a ação comunicativa como fator essencial para se tomar decisões e qualquer indivíduo tem o direito de fala. Desse modo, o acordo entre o usuário, família e médicos é fundamental para que uma possível intervenção não agrave ainda mais o estado mental do sujeito.
Ademais, o Brasil para promover esse tipo de internação involuntária deve ter condições de acolher com qualidade os usuários. Nesse contexto, segundo o Ministério da Saúde dos 32,7 mil leitos para tratamento de doentes mentais,somente 11,5 mil leitos são destinados aos dependentes químicos, nos parâmetros da OMS ( Organização Mundial da Saúde) o número de leitos totais deveria ser de 950 mil. Dessa forma, com um número pequeno de leitos, dependentes químicos em condições sociais desfavoráveis são prejudicado, tendo em vista que o número de dependentes químicos de classe média tem aumentado, o que prejudica um acolhimento amplo e ideal de todos os afetados.
Dado o exposto, faz-se necessário uma atuação do Ministério da Saúde, por intermédio das clínicas de reabilitação e Caps (Centro de Atenção Psicossocial), na promoção de atendimentos móveis em regiões periféricas. Com isso, as famílias dos usuários poderão acionar esses atendimento e, com ajuda de psicólogos, buscar auxílio na decisão de internação com a participação e ciência de todo o processo por parte do enfermo. Além disso, o Ministério da Saúde deve investir porcentagem do PIB (produto interno bruto) na construção de mais leitos voltados à população mais vulnerável. Só assim, os dependentes químicos não temerão a internação,uma vez que a qualidade do tratamento não será traumatizante como a internação involuntária de Austregésilo Carrano Bueno.