A internação involuntária de dependentes químicos no Brasil.

Enviada em 27/04/2020

“O homem é a medida de todas as coisas”. Essa máxima atribuída ao filósofo grego Protágoras, revela o protagonismo humano em que o indivíduo tem o poder de construir sua realidade e seus valores em sociedade. Todavia, esse livre arbítrio pode torná-lo vítima de suas ações. Nesse sentido, referente aos dependentes químicos no Brasil, ocorre uma intrínseca identificação com a frase do pensador, pois a internação involuntária dos toxicomaníacos vitimiza todo o corpo social. Dessa forma, os prejuízos da internação compulsória são inúmeros e evidentes.

Em primeira análise, convém frisar um dos maiores imbróglios presentes na sociedade atual: o consumo disseminado e descontrolado de drogas. Nesse sentido, considerado o mal do século XXI, o uso desses entorpecentes com alto grau de dependência é um poderoso estimulante do sistema nervoso, sendo seu uso associado a outros problemas, tanto de ordem psicológica, como física e social. Desse modo, é lamentável a situação de muitas pessoas dependentes desses alucinógenos, as quais possam ser necessárias internações, contudo, a maneira como ela é involuntariamente imposta viola completamente o direito à liberdade de escolha do individuo, o que contrapõe o artigo 5 da constituição federal que garante esse direito inerente ao ser humano.

Ademais, a forma desagradável de fazer a remoção desses usuários do convívio social é extremamente abominável, haja vista que os mesmos são tratados como doentes mentais e privados de liberdade. Sob essa ótica, segundo o renomado Ricardo Dias, diretor clínico da casa de saúde Saint Roman,do Rio de Janeiro, 95% das recaídas dos dependentes químicos ocorrem quando as pessoas são internadas involuntariamente, demonstrando que o tratamento por si só não trará efeito para que o mesmo mude seu estilo de vida, sendo uma visão muito simplista, já que se o paciente não tiver motivação e autonomia sobre seu quadro clínico, o benefício de uma internação é muito pequeno.

Portanto, faz-se necessária a realização de medidas atenuantes. Assim, cabe ao Ministério da Saúde juntamente ao poder executivo, o papel primordial de disponibilizar aos dependentes químicos que quiserem, sem qualquer tipo de pressão que obstaculize o seu livre arbítrio, ao amplo acesso gratuito de recursos para seus vícios, por meio de consultórios nas ruas, tratamentos ambulatoriais e Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), as quais por intermédio de médicos, terapeutas e equipes de linha cognitiva comportamental auxiliem esses incentivos, para que haja uma ampla mobilização dos diversos setores, a fim de transmudar esse cenário caótico de internação involuntária.