A internação involuntária de dependentes químicos no Brasil.

Enviada em 14/08/2020

Uma postura destituída de empatia perante o sofrimento alheio. Essa é a imagem presente no quadro “O grito”, do pintor Edvard Munch, pois, na elaboração dessa arte expressionista, veem-se, ao fundo da tela, personagens indiferentes  à angústia evidenciada pela figura humana do plano central. Entretanto, essa cena não se limita ao âmbito artístico, já que as vítimas da internação involuntária de dependentes químicos no Brasil vivem algo semelhante, tendo em vista que elas têm sido “esquecidas” por setores governamentais e sociais. Sob essa ótica, cabe analisar os aspectos políticos e culturais que envolvem essa questão no país.

Primeiramente, pontua-se que o Poder Público mostra-se negligente ao permitir a internação involuntária. Isso porque há, por parte dos órgãos executivas, uma ineficiência quanto ao processo de conscientização, uma vez que falta informar sobre os danos psíquicos que as drogas podem trazer ao usuário, o que prejudica a tomada de iniciativa pelo próprio dependente e, por conseguinte, a consolidação do direito à integridade mental. Sendo assim, nota-se que o governo não tem garantido o bem-estar de todo o coletivo, evidenciando, dessa forma, a ausência de consolidação dos princípios fundamentais, alicerçados nos ideais iluministas do século XVIII em prol da democracia.

Também, observa-se que o silenciamento social frente à internação involuntária de dependentes químicos apresenta-se como fator agravador desse quadro negativo. Contudo, parte da população tem demonstrado certa inércia diante desse cenário, por acreditar que são majoritários os segmentos políticos contrários ao investimento financeiro, posto que faltam verbas para manter o longo período de tratamento para pessoas quimicamente dependentes, comprometendo, então, a possibilidade de não haver recaídas. Recorrendo aos  estudos da cientista política Elisabeth Noelle-Neumann para explicar esse fenômeno, contata-se que, para evitarem conflitos com grupos dominantes, alguns indivíduos tendem a fortalecer uma “espiral do silêncio”, permitindo, assim, a manutenção de alguns entraves.

Ressalta-se, portanto, que a internação involuntária deve ser superada. Logo, é necessário exigir do Estado, via debates em audiências públicas, a conscientização dos usuários de drogas, priorizando projetos educativos realizados em praças, com o objetivo de informar acerca dos danos as faculdades mentais que os entorpecentes desenvolvem. Ademais, é essencial estimular a população, por intermédio de campanhas midiáticas produzidas por organizações não governamentais, a respeito da importância de haver o engajamento coletivo para a ruptura de discursos dominantes, potencializando, assim, o financiamento de todo o tratamento terapêutico para os viciados. Desse modo, a indiferença ao sofrimento alheio poderia ficar restrita aos personagens da obra de Munch.