A internação involuntária de dependentes químicos no Brasil.

Enviada em 21/08/2020

“Ninguém mais é civilizado. Ninguém pensa em como é estar no lugar do outro.” Nesse trecho do filme do diretor Todd Phillips, “Coringa”, vê-se uma crítica à ausência de empatia característica das sociedades atuais. Sendo assim, essa questão pode ser observada no Brasil, já que as vítimas da falta da internação involuntária de dependentes químicos também têm sido esquecidas por determinados grupos sociais em virtude do mesmo fator. Nessa perspectiva, é interessante analisar os avanços e desafios que envolvem essa questão no país.

Inicialmente, compreende-se que o Poder Público apresenta uma certa funcionalidade em relação à internação involuntária. Isso porque há um processo eficiente de assistência, uma vez que se tem formulado leis leis para a legalização do tratamento consentido por parentes consanguíneos de indivíduos dependentes de drogas, por exemplo, com prescrição médica, o que favorece a consolidação do direito à saúde desse cidadão inapto para tomar suas próprias decisões. Logo, verifica-se que o estado tem, em determinada medida, garantido o bem-estar de toda a população, demonstrando, desse modo, a concretização do contrato social teorizado pelo filósofo John Locke.

Em contrapartida, enfatiza-se que a falta de internação involuntária é consequência dos estereótipos que existem. Sabe-se, pois, que historicamente o investimento financeiro estatal em clínicas de reabilitação química tem sido marginalizado, o que se explica a partir da crença, transmitida de forma cultural, de tal ato configura-se como um desperdício de dinheiro público, desconsiderando, porém, que 27% dos brasileiros conhecem algum dependente em substâncias ilícitas, segundo dados do Datafolha, em situação de incapacidade psíquica. Para explicar esse cenário pode-se tomar como base os estudos do filósofo Friedrich Nietzsche, os quais constatam que a falta de conhecimento das pessoas sobre determinadas informações deturpa a compreensão da realidade.

Ressalta-se, em suma, que a falta de internação involuntária deve ser superada. Portanto, é necessário exigir do governo, mediante debates em audiências públicas, a aprimoração da assistência estatal, priorizando o auxílio jurídico, a partir do ministério competente, para o tratamento dos dependentes químicos, com o objetivo de reabilitá-los para o convívio em sociedade. Ademais, é fundamental sensibilizar a população, via campanhas midiáticas produzidas por ONGs, sobre as ideologias existentes sobre a aplicação de verbas nas clínicas de auxílio a esses cidadãos, potencializando, assim, a desconstrução da visão limitada de que é um desperdício de fundos monetários públicos. Dessa forma, a ausência de empatia poderia ficar restrita ao filme “O Coringa”.