A internação involuntária de dependentes químicos no Brasil.

Enviada em 19/08/2020

A Constituição Federal Brasileira prevê tratamento eficaz digno e não discriminatório a qualquer indivíduo internado em clínicas de reabilitação do uso de drogas, seja a internação voluntária ou não. No entanto, sobretudo quando se trata da modalidade involuntária, o que se nota é a injusta segregação dos pacientes baseada em critérios como renda familiar, além da ineficiência dos métodos empregados em tais instituições, o que provoca a enorme evasão dos dependentes químicos.

Em primeira análise, é válido observar os maus-tratos sofridos pelos pacientes internados involuntariamente, por serem considerados “mais difíceis” de lidar, em clínicas que atendem a um público de menor poder aquisitivo. Enquanto nas instituições de maior prestígio os internados recebem uma alimentação de qualidade, acompanhamento psicológico, além de acesso a atividades de lazer, os usuários pobres acabam, muitas vezes, passando fome, não tendo uma higiene adequada e até sofrendo agressões físicas e verbais. Esse quadro constitui uma nova face do conceito descrito no livro “Casa Grande e Senzala”, do autor Gilberto Freyre, ou seja, as diferenças de renda de cada paciente irão determinar o tratamento que “merecem”, cabendo o melhor aos mais abastados e uma condição semelhante a dos escravos aos economicamente desfavorecidos.

Paralelo a isso, os métodos de ressocialização nas clínicas de reabilitação são bastante ineficazes, várias vezes sequer existem, o que leva ao problema da evasão dos dependentes químicos, como retratado na série “A Maldição da Residência Hill”, na qual um dos personagens, usuário de heroína, apesar do apoio da família, vai embora da instituição em repetidas ocasiões. Quando se trata de indivíduos que foram internados contra sua vontade essa fuga ocorre com muito mais frequência, pois eles não se sentem motivados a insistir em sua recuperação. É necessário se utilizar de formas de aproximação dos médicos com os pacientes e descobrir atividades que os incentivem a permanecer em tratamento, tais como arte, trabalhos lúdicos e outros que promovam sua profissionalização.

Tendo em vista esse quadro, é incisivo que medidas sejam tomadas para melhorá-lo. É necessário que o governo controle a situação de maus-tratos vivida pelos pacientes em instituições públicas, enviando a cada trimestre fiscais para avaliar as condições dos internos, através de entrevistas com os mesmos e avaliação de seu estado emocional, a fim de acabar com a vivência de “senzala” dos usuários menos abastados. Também é preciso que profissionais atuantes nas clínicas invistam na ressocialização dos pacientes, inserindo cursos profissionalizantes após a análise do perfil pessoal de cada dependente internado, na intenção de reduzir a taxa de evasão, pois a perspectiva de trabalho após a saída da clínica os manterá motivados a seguir com o tratamento..