A internação involuntária de dependentes químicos no Brasil.
Enviada em 21/08/2020
O poema “Vou-me embora para Pasárgada” , do escritor Manuel Bandeira, retrata o desejo de ida a um lugar feliz e pleno. Caminho esse utilizado pelos usuários de droga, que entram nesse mundo buscando de maneira errônea a felicidade, e perdem-se. Essa realidade é vivenciada por inúmeros brasileiros que, infelizmente, encontram-se em estado de dependência química, e que são internados involuntariamente. Nesse contexto, torna-se urgente discutir os fatores que levam ao uso da droga, juntamente com o perigo da atitude forçada.
De início, cabe entender que o psicanalista Zigmound Freud, em sua obra “O futuro de uma ilusão”, destila que os indivíduos, numa tentativa de remodelamento da própria realidade, entram no mundo das drogas buscando driblar o sofrimento.Porém,geralmente, as drogas são um caminho cíclico, levando ao vício e a dependência química. Neste infeliz estado, o dependente tende a perder sua capacidade de discernimento, equilíbrio e autocontrole, numa busca desenfreada de saciação.Logo, pelo caráter de instabilidade, tendem a se tornar um perigo pra sociedade, podendo prejudicar o bem estar da mesma.
Ademais,é importante entender o conceito “Domestificação dos Corpos”, do filósofo Michael Foucalt, o qual relata que indivíduos são docializados por técnicas de dominação, as quais podem levar a desumanização do ser. De maneira análoga à tal pensamento, a internação involuntária dos dependentes químicos é uma forma coercitiva e agressiva domar indivíduos, não respeitando suas escolhas e liberdades individuais. Estas, são anuladas em pró de afastar o dependente da sociedade, como se tal fosse um apenas um problema que precisa ser resolvido urgentemente. Assim, o processo de tratamento do indivíduo na clínica tende a ser extremamente complexo, pois ele não está ali por vontade própria, refletindo geralmente num quadro de não aceitação e dificultando a cura.
Diante dos fatos supracitados, é notório que o Brasil precisa direcionar mais atenção à questão da internação involuntária de dependentes químicos. Urge, portanto, que o Ministério de Saúde fomente o processo de comunicação entre o dependente e a família, por meio de palestras públicas nos mais diversos municípios do país, as quais sejam feitas por psicólogos e psiquiatras que abordem com cautela a importância do diálogo com as pessoa que estão nessa condição, mostrando apoio e oferecendo a internação como uma solução, afim de que esta seja mais pacífica e equilibrada. Além disso, cabe à mesma instituição a disponibilização de especialistas que façam visitas a essas famílias, e conversem com o dependente, de modo a tirar todas as dúvidas e incentivar a escolha da internação. Para assim, promover o bem estar não só da coletividade, como também do indivíduo que encontra-se nessa condição.